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afonsonunes

afonsonunes

29 Jul, 2009

A barragem

 

 
A barragem enche por cima e vasa por baixo. Ora que grande maravilha. Isso até qualquer pessoa minimamente inteligente sabe, por experiência própria, e os menos inteligentes também sentem isso, só que nunca repararam nesses pormenores de somenos importância para eles.
Quando se fala de barragens e de pessoas não pode deixar de se pensar em água. Na barragem, isso é mais que evidente. Nas pessoas, a água anda escondida, mas todos sabemos como elas metem água das formas mais diversas, o que justifica que os seus corpos sejam grandemente constituídos por água.
A barragem também é uma via de circulação de uma margem para a outra, permitindo que as conversas transitem por elas, com o inconveniente de que isso beneficia igualmente a movimentação de marginais. Facto tão importante que não estou a imaginar muito bem, como é que, nos tempos que correm, conseguiríamos viver sem eles por perto.
Em termos de barragem, o que mais me anima é pensar nos grandes cérebros que conseguem contentar quem vive acima e abaixo dela, pois eles mudam do lado da albufeira para o lado da corrente, a qualquer hora do dia, pregando as suas teorias sobre o efeito separador da grande estrutura de betão.
Do lado de cima, fazem ver a necessidade de não abrir as comportas, senão lá se vai a água que lhes permite viver à tona dela. Do lado de baixo, reclamam a necessidade de não deixarem que lhes fechem as comportas, sob pena de viverem permanentemente ameaçados de roturas que levem à inundação das casas onde vivem. Além disso, dizem, a água fez-se para correr e não para estar parada, às ordens de alguns.
São exactamente os mesmos que, num lado gritam para abrir as comportas, no outro gritam para fechar as comportas. Ora isto cheira-me a políticos que, se bem sei pensar, são a favor do estado que tem dar toda a água, a todos, em todas as circunstâncias mas, logo a seguir, bradam aos céus, porque o estado desperdiça a água que pode vir a não ter, caminhando assim para a sede mortífera.    
O estado não é uma barragem, mas está à mercê de muitos dos que andam a apregoar água com fartura já, e torneira fechada de imediato, consoante o lado da barragem onde se encontram. Porque o estado também enche por cima e vasa por baixo. Mal vão as coisas, quando se enche de menos e se vasa de mais. Os de cima temem a seca, a míngua e o lodo do fundo. Os de baixo querem a corrente normal, com medo das enxurradas, ou da seca imposta pelos de cima.  
A barragem tem os seus limites e o estado tem os seus mínimos. Perigosamente inconscientes, são aqueles que prometem água sem limites aos de baixo e aos de cima para, logo a seguir, se insurgirem com S. Pedro, porque não mandou chover o suficiente para satisfazer todos os devotos.