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afonsonunes

afonsonunes

30 Jul, 2009

O país já mudou

 

Aí está uma afirmação que corre o risco de indignar alguém, não porque não seja verdadeira, mas porque há sempre quem defenda pontos de vista tão esquisitos como os meus, ainda que bastante diferentes. Portanto, a esquisitice está apenas na possibilidade de sermos esquisitos, perante pessoas muito mais sensatas que nós.  
Haverá pessoas que pensam que estou a meter água, daí que possam indignar-se, porque não aceitam que o país tenha mudado nos últimos anos. Resta saber em que espécie de mudança estarão essas pessoas a pensar. Se calhar, não estão a pensar no mesmo que eu, certamente.
Até porque há quem diga que mudamos para pior. Concordo plenamente, se essas pessoas se referirem concretamente à sua situação pessoal. Nesse caso, deviam dizer que eles, estão pior do que estavam. É o caso dos senhores que viram os seus carrinhos, bons, ou muito bons, penhorados.
Para os que dizem que isto continua tudo na mesma, a situação é bem mais complicada. Não compreendo como é que eles conseguem estar na mesma, quando uns dizem que o nível de vida subiu, enquanto outros afirmam que desceu brutalmente. Tenho de considerar que se trata de pessoas com muita sorte, aquelas que acham tudo na mesma, por se manterem estáveis, no meio de tanta instabilidade.
Agora vamos lá aos que pensam que o país está melhor. É muito difícil ouvi-los no meio de tanto ruído exterior. Mas, acredito que também os há, embora muito mais comedidos que os restantes, melhor, que os outros. Mesmo sem contar com aqueles que são considerados vozes do dono.
Sem pretender avaliar quem é que é mais voz do dono, sempre direi que, mesmo aqueles que se consideram muito independentes, acabam sempre por ter lá dentro uma vozinha que lhes segreda o que devem dizer ou fazer, ainda que seja a voz de si próprios. Que, quer queiram, quer não, também são donos de qualquer coisa. Nem que seja da sua opinião, que também pode ter que se lhe diga.
A todos aqueles que dizem que o país não mudou, eu contraponho que perguntem a si próprios, com todo o sentido de verdade, o motivo dessa afirmação. Sim, porque verifico que a maior parte das grandes movimentações reivindicativas se baseiam em contestação a qualquer coisa que mudou. Logo, não está tudo na mesma. Logo, alguma coisa mudou.
Que já houve mudanças, só não as vê quem ainda as não sentiu na pele, no bolso, no pensamento, nas excentricidades, nas atitudes, nos modos e até nas ideias. O problema é saber se elas agradaram a mais, ou a menos gente. A chatice é ser capaz de pensar, no mínimo, tanto nos outros como em nós próprios, para as poder avaliar correctamente.
Gostava de perguntar aos maiorais que já foram chamados à justiça, se pensam que nada mudou. Gostava de perguntar a certas corporações, se acham que ainda está tudo como dantes. Gostava de perguntar a certos moralistas de cátedra, porque não viram as imoralidades que vêem agora, quando as deviam ter visto, no tempo em que as podiam ter eliminado ou denunciado.
O país já mudou, sim, nem sempre bem, nem sempre mal. É preciso e urgente que mude muito mais, e muito mais depressa. Mas isso só pode ser feito por quem, realmente, tem vontade de mudar e diga já, aquilo que quer mudar. Tudo o resto é conversa e, em muitos casos, vontade de meter a marcha atrás.