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afonsonunes

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31 Jul, 2009

As minhas prendas

 

Já ofereço obrigatoriamente uma quantia mensal para a televisão pública, que eles dominam e controlam, cá no meu entender, absolutamente em proveito próprio. Esta é, portanto, uma oferta um tanto estranha, porque é uma dádiva que alguém vem tirar do meu bolso, contra a minha vontade.
Se eles tivessem alguma coisa a ver comigo, ainda me dava um certo consolo. Por exemplo, se eles fossem capazes de dizer umas palavrinhas que constassem dos meus prazeres pessoais, como seria o caso de ouvir gente com ideias diferentes a falar umas com as outras, sem discutir.
Não me custaria nada dar uma esmolinha para o pessoal de lá, se não gastassem balúrdios com meia dúzia de pessoas, que até podem ser boas pessoas mas, à custa de tanto tentarem meter-mas pelos olhos dentro, passei a vê-las com os mesmos olhos esbugalhados que a Judith usa para certos membros do governo.
Também não me importaria de contribuir com um euro por mês para que, de tempos a tempos, mudassem as cores daquilo tudo, pois assim, a cor do meu rosto, quando olho para lá, ou fica azulado como se estivesse no fundo do mar das tormentas, ou fico alaranjado, como se estivesse a caminhar para um ataque de icterícia.
Já tenho ouvido dizer que o burro acaba sempre por comer a palha que não queria, desde que seja alguém que sabe, a meter-lha na boca. Ora eu que, comparado com um burro não sou ninguém, não consigo comer a palha televisiva de forma nenhuma. Depreendo que eles não sabem mesmo dar-me aquela coisa.
A única coisa que eles sabem é receber a minha colecta e nem sequer se lembram de me dizer obrigado. E eles sabem bem que sou obrigado a pagar, senão era certo que lhes fazia o gesto popular que diz, queres fiado, toma…
Mas, como não sou mau de todo, sempre estou disponível para os ajudar com umas prendinhas que, ao fim e ao cabo, até nem me exigem grandes sacrifícios, nada comparados com o esforço hercúleo de toda aquela ínclita geração, que consegue estar em tantos sítios, às mesmas horas, a brincar aos programas. Será que eles ganham ao quilómetro?
Mas vamos lá às minhas prendas, que já estou a falar demais, senão ainda dizem que ganho à linha, ou ao parágrafo.
Ao Prof. Martelo oferecia uma Dra. Rosa para substituir a Dra. Flor que ele costuma ter na frente a qual, sendo tal qual o nome que tem, deve estar farta de levar com gafanhotos. Ao Dr. Vitorinho oferecia uma cadeira um pouco mais alta, para poder responder ao nível das perguntas da Dra. Judith. Ao Dr. José dos Santos, oferecia um livro do Dr. J. Albert Carvalho, para ler nas horas vagas, na primeira deslocação ao Afeganistão.
Mas, como descobri uma grave falha no guarda-roupa da RTP, fartei-me de andar a correr lojas e mais lojas com saldos, pois o meu cartão de crédito anda muito por baixo. Mas, lá descobri umas coisas em bom preço, num centro comercial em vias de fechar.
Para as senhoras doutoras, comprei cachecóis encarnados, porque aquele ambiente, ora azul, ora laranja, tanto no estúdio como no vestuário, é demasiado frio, ou por vezes pouco quente, daí a necessidade de uns agasalhos, igualmente desopilantes da vista.
Para os senhores doutores, comprei umas gravatinhas em vermelho vivo, cor de cravo, para quebrar aquela alternância de gravata azul, gravata laranja, por vezes com riscas brancas. Ainda pensei em tons verdes mas, pensei, se estão verdes, não prestam.
Esclareço que já estou preparado para alguma rejeição.