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afonsonunes

afonsonunes

01 Ago, 2009

É verdade, pois

 

Ainda não há muitas horas acabava eu de ser convidado para substituir o PM, e já alguém cheio de boas intenções levantava a polémica de que fora ele próprio a dirigir-me o convite e a assegurar que tinha toda a legitimidade para introduzir a minha pessoa em tão elevadas responsabilidades pessoais e colectivas.
Ora isto não se faz, pois o PM não gosta de quem anda a divulgar as coisas que ele pensa, provavelmente, muito antes de ele as pensar. Depois, toda a gente sabe que ele não alinha em baixezas dessas, como é o caso de me escolher a mim, para o substituir, embora eu seja uma pessoa até bastante baixa.
Também não se compreende o motivo porque o PM havia de me convidar através da sua ilustre pessoa. Há gente que gosta muito de inventar coisas acerca do PM, só porque ele é uma pessoa muito simpática. Não compreendem que ele tem os seus convidadores privativos que, no meio destas polémicas, se sentem extremamente embaraçados.
É fácil imaginar a quantidade de câmaras, microfones, telemóveis e não sei que mais, que caíram em cima dos convidadores, exigindo-lhes a confirmação ou o desmentido de que não foram eles que me dirigiram o convite ou, pelo menos, o pré convite. Até houve empurrões e tudo. Eu é que não queria estar na pele desses sacrificados convidadores.
O que é facto é que ninguém se cala com a história do convite. Até o meu telemóvel ficou bloqueado com tantas perguntas, mesmo que eu não tenha ainda tido a coragem de o ligar. Se tal acontecesse, a primeira coisa que eu teria de dizer era se ia aceitar o tal convite misterioso e polémico.
Não tenho dúvidas de que, se eu atendesse o telemóvel, mesmo que dissesse que não aceitava nada, iriam exigir que declarasse solenemente o que faria ao meu antecessor, logo a seguir ao acto de posse. Parece que não compreendem que eu teria, no mínimo, de ter cinco minutos para pensar no assunto.
Sinceramente, não gosto de gente precipitada e demasiado ansiosa. Parece que não têm pachorra para nada. Depois andam a toda a hora a chamar a atenção para o facto de haver quem não lhes dê a devida atenção. Não é o meu caso, pois eu apenas quero poupar-lhes o esforço de terem de me aturar em tantas entrevistas e, ainda por cima, grandes entrevistas.
Acabo de ouvir bater-me à porta. Estou tramado. Se forem muitos a empurrá-la ao mesmo tempo, não vai resistir, e lá vou ser abalroado dentro da minha própria casa, por uma multidão a disparar flashes, a perder microfones e a desarrumar-me a casa toda. E eu sem poder escapar, mesmo dentro do guarda-fatos.
Afinal, o silêncio voltou. Já posso respirar fundo, porque vou ter mais uns minutos para reflectir. Em primeiro lugar, se vou confirmar ou desmentir o convite da polémica; em segundo lugar, se vou aceitar, ou não, esse convite para substituir o PM; em terceiro lugar, o que vou fazer dele, depois de o ter substituído. Aquele reboliço que descrevi, é só por causa de saberem a música que vou mandar tocar depois da posse.    
Caramba, quando penso no reboliço que vai por esse país inteiro, e que ainda vai ser maior, fico mesmo estupefacto. Então eu, com toda a naturalidade e simplicidade, sou escolhido, e bem escolhido, para substituir o Primo Mário, PM, na direcção da filarmónica mas, incompreensivelmente, anda tanta gente às cabeçadas, com medo das escolhas do Zé.
Não percebo porque não fazem o mesmo no país. Eu adoro escolhas, principalmente, enquanto for eu o escolhido. Há muita gente que ficaria feliz se pudesse escolher à vontade, como o PM, mas não era eu o escolhido. É verdade, pois.