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afonsonunes

afonsonunes

02 Ago, 2009

Igual para todos

 

Mas, o quê? Que eu saiba, absolutamente nada. Nem o ar que se respira, pois ele apenas é igual para aqueles que estão no mesmo espaço, no mesmo momento. Depois, lá está o ar condicionado, a barraca em lugar da casa, e tantas outras condições, a estabelecer as diferenças e, quantas vezes, a ditar o ar que lhes dá.
Contudo, há quem insista em reclamar tudo igual para todos, como se quisesse para si, tudo igual ao que muitos têm. Certamente que não se reclama a dor e o sacrifício que atinge tanta gente. É verdade que apenas se reclama que, também esses, tenham a vida fácil que muitos outros têm.
Daí que, para que a haja a justiça social que tal reclamação implica, tenha de haver repartição total, entre todos, do que é bom e do que é mau. Ora, logo aqui, começa a surgir o grande problema dessa teoria. O que é bom para uns, pode ser mau para outros, o que impossibilita a distribuição igualitária tão reclamada.
Até porque teria de se começar por exigir que o trabalhito de que uns tanto gostam, e outros tanto detestam, fosse obrigatório e igual para toda a gente. Para que fosse igual, teria de haver uma tabela de equivalência de tarefas. Para que fosse obrigatório, implicava haver os que obrigavam e os que eram obrigados. Ora assim, adeus igualdade.
Para que tudo fosse igual para todos, toda a gente teria de ter o mesmo nível de inteligência, o mesmo nível de conhecimentos e o mesmo nível de capacidades, para que não houvesse essa história de uns ganharem muito e outros ganharem pouco, ou nada. Teria, pois, de se acabar com o lema, para trabalho igual, salário igual, substituindo-o por, trabalho todo igual, salário todo igual.
Para alguns teóricos da retórica, que teriam de deixar de o ser, será fácil encontrar resposta para estas dificuldades, já que eles não conhecem mesmo nenhuma dificuldade, ao nível do uso e abuso da sua palavrosa ocupação. Tanto mais que não lhes faltam alvos para a sua aplicação e desenvolvimento continuado.
Considerando que teriam de ser iguaizinhos aos outros, cairiam inevitavelmente no papel das suas vítimas normais de agora, ou, na melhor das hipóteses, teriam de aguentar a seu lado, com iguais teorias e retóricas de resposta, aqueles que estavam habituados a seringar diariamente.
Nesta altura de caça ao voto, a época é de reclamação, de proclamação e de exigência de toda a espécie de igualdades, mas todos e todas se distanciam dos restantes, repudiando ser iguais seja lá a quem for. Não admira, porque nem eu, que não tenho nada a ver com aquilo, queria sequer ser parecido com eles e com elas.
Portanto, essa coisa de sermos todos iguais, ou do sonho de o podermos vir a ser, que os ilusionistas não brinquem muito com coisas sérias pois, às vezes, o diabo tece-as e, por um golpe do destino, podemos vir a tornar-nos iguais a quem não queremos mesmo nada. 
Por enquanto, e até que me convençam de que estou enganado, não quero ser igual a ninguém. Quero apenas ser igual a mim próprio.