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afonsonunes

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21 Ago, 2009

A lógica da batata

 

A minha prima Ambrosina parece andar um tanto distraída nos últimos tempos, tudo porque, diz ela, não consegue deixar de pensar na melhor maneira de passar a perna à melhor inimiga, a Carolina, depois desta ter andado a divulgar umas passagens da sua vida que, não tendo nada de mal, também não tem nada do contrário.
Ora, diz a minha prima, se a Carolina sabe essas coisas, é porque anda a mandar escutar a vida dela, provavelmente, através da chaminé da cozinha, que é o local onde passa mais tempo, quando está em casa. Já se tinha lembrado das escutas telefónicas, mas não é possível, porque o seu telemóvel até é só de brincar.
Isto é uma dedução lógica, pois se ela sabe, é porque escuta. Se ela escuta, alguém fala. Se alguém fala, alguém ouve. E se alguém ouve, alguém vai falar. Chama-se a isto a lógica da batata.
Mas, também diz a lógica da batata que, quem tem medo de andar a ser escutado, perdão, quem tem receio de andar a ser escutado, melhor, se alguém desconfia que anda a ser escutado, é porque tem medo, ou tem receio, ou desconfia que possam descobrir qualquer marosca que anda a ser feita às escondidas.
A lógica da batata poderia levar-nos muito mais longe, e a minha prima Ambrosina está farta de saber que a sua melhor inimiga, a Carolina, aproveita todas as baldas para se encavalitar no sino da igreja e desatar a badalar, para que toda a gente fique a saber que ela tem asneira para botar.
Mas, bota daqui, bota dali, o roufenho sino da igreja fica confundido, pois até ele tem dúvidas sobre as contradições entre o que diz a Ambrosina e o que sopra a Carolina. Tudo porque o sino ingénuo não sabe que a Ambrosina é minha prima, logo, digna de todo o crédito do mundo.
É absolutamente inequívoco que quem for capaz de seguir a lógica da batata, está ao abrigo de qualquer equívoco que desmereça a sensatez de alguém, como a minha prima Ambrosina, que já demonstrou em outras ocasiões, que não teme confrontações, mesmo que elas venham da Madeira, quanto mais de qualquer chafarica do continente.
Ainda há dias me perguntou se a lógica da batata também devia aplicar-se aos conselheiros dela, sendo eu, um deles. Reagi de imediato, com toda a veemência, pois ela devia saber à distância, que a minha pessoa, não é conselheira de mais ninguém, senão dela. Ainda que ela não me dê um tusto em troca. Mas, também já lhe disse que, em contrapartida, eu aprecio muito a maneira tesa e sem meias palavras, como ela segue à risca os meus conselhos. Ora isso não há dinheiro que pague.
Manda a lógica da batata que eu pense que uma mulher assim, devia estar a mandar. Principalmente a mandar na Carolina, que mais não fosse, porque seria um prémio de consolação pelo facto de ser a sua melhor inimiga. Certamente, ela já sentiu que a outra, a sua pior inimiga, está roída de inveja por não lhe ser dado o consolo mínimo.
A minha prima Ambrosina adora as suas inimigas, porque sabe que a ouvem com toda a atenção. Se a ouvem, é porque a escutam. Se a escutam é porque gostam dela. Se gostam dela, batem-lhe o mais que podem com a língua. Porque sempre ouviram dizer que, quanto mais me bates, mais gosto de ti.
São assim as inimigas da minha prima Ambrosina, da melhor à pior, porque as conversas e as escutas que todas elas adoram, são o seu único passatempo, embora nem sempre respeitem a lógica da batata.