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afonsonunes

afonsonunes

01 Set, 2009

Nós, os egoistas

 

Hoje deu-me para isto, mas fico satisfeito porque sou capaz de fazer aquilo que muita gente, teimosamente, não consegue. Porque insiste em ver uma única verdade, sem pensar que há verdades mentirosas, tal como há mentiras verdadeiras. E então, neste período de caça ao voto, em que toda a gente gostaria de impingir a sua verdade aos outros, chega a ser cómica, a estúpida argumentação para o conseguir.
É por isso que hoje vou assumir que sou o contrário do que já fui aqui muitas vezes. Hoje vou assumir que sou um egoísta de primeira, colocando-me do lado dos egoístas que já tantas vezes aqui critiquei. Porque esta coisa do egoísmo não é coisa que apenas toque aos outros, mais disfarçado, mais evidente, mas sempre egoísmo que puxa para o lado dos nossos interesses.
E lá vou eu ao encontro dos mais badalados protagonistas do momento. Os políticos. Badalados porque eles não seriam quem são, se não estivessem permanentemente pendurados no badalo de tanta gente ao mesmo tempo. É assim que eles querem, porque é assim que eles gostam. Podem não ter grande badalo, mas que gostam de ser badalados, não tenho dúvida alguma. 
Contudo, nós, os que gostamos de os badalar, chegamos a ser muito mais egoístas que eles. Porque os acusamos de tudo e de mais alguma coisa. Porque queremos que eles nos satisfaçam todos os caprichos e todos os interesses. Porque nos esquecemos que há montes de gente a pedir que eles, os políticos, façam exactamente o contrário daquilo que nós queremos e nos interessa.
Ora está bem de ver que os políticos, mesmo pondo em primeiro lugar os seus interesses, não podem mandar formar fila única para o atendimento da clientela, como em qualquer estabelecimento comercial. Então, têm de olhar para as pessoas às molhadas. E quanto maiores forem estas, mais prioridade têm.
Portanto, para mim, hoje que estou bem disposto, aceito perfeitamente que os políticos não são tão maus como os pintam, até porque não estou a ver muita gente que consiga fazer mais que eles, atendendo a que o país está cheio de clientes seus, que nunca gostaram de fazer fosse o que fosse, para lá de ir levantar o subsídio mensal.
Mesmo que não seja um mensalão, como todos desejariam, a verdade é que se conformam o mensalinho, suficiente para não quererem trabalheiras.
É por isso que os políticos têm muita dificuldade em trabalhar nestas condições de extrema dureza, sob a pressão de muitos braços no ar, ameaçando cair sobre as suas cabeças, sob uma gritaria ensurdecedora de insultos às mãezinhas, sob a angustiante indecisão de voltarem à esquerda ou à direita nos cruzamentos e nas rotundas, onde não há sinalização, sob a cortante ansiedade de partir, ou ficar, no dia do julgamento popular.
Hoje estou do lado dos políticos, contra todos aqueles que julgam que são melhores que eles, mas não arriscam ir para a concorrência e, quantos deles, não arriscam sequer fazer uma escolha. Dirão que nenhum deles é suficientemente bom. Eu diria que quem não é capaz de fazer uma escolha, ainda é pior que eles. Sempre ouvi dizer que, enquanto houver dois, há escolha.
O grande problema é que nós, os egoístas, só conseguimos ver um: o nosso umbigo.