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afonsonunes

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02 Set, 2009

Espantalhos

 

Desta vez cabe-me a mim confessar que tenho andado muito distraído, a ponto de não conseguir ver coisas tão espantosas que estão nas ruas, nos jardins, nas avenidas e até nas rotundas que nos põem a cabeça à roda de tanto circular.
O país está cheio de cartazes com frases engraçadas que, por acaso, eu ainda não tinha descoberto. Não fora alguém muito importante ter chamado a minha atenção, via televisão, e eu perderia mais algum tempo espantoso, sem descobrir esses cartazes.
Esse alguém que fez o favor de me pôr em dia com o ambiente que me rodeia, disse estar espantada com esses cartazes. Bem, ela sabe com o que se espanta e o motivo porque se espanta.
Ora se ela se espanta com os cartazes, é de concluir que esses cartazes são espantalhos. Temos assim o país pejado de espantalhos, no masculino e no feminino, já que não há ‘espantalhas’, se quisesse ser mais preciso e concreto.
Não sei porquê, mas esta ‘espantalhice’ fez-me lembrar diverso tipo de espantalhos que os nossos homens e mulheres do campo colocam junto das culturas, especialmente, das hortas, para que não fiquem sujeitas ao assalto da passarada e até de alguma bicharada.
Estes espantalhos são réplicas toscas de gente vestida com roupas velhas e grandes chapéus, para espantar tudo o que tem medo de gente, pois se recriassem um outro animal como espantalho, era o mesmo que nada. Obviamente, só o bicho homem e a bicha mulher, espantam.
Ora, o que mais me intriga nestes cartazes, perdão, espantalhos, é que eles, sendo espantalhos, começam logo por espantar-se a si próprios, pois é isso que eu deduzo das figuras que neles aparecem, e tendo em conta a personagem espantada.   
A mim já nada me espanta, talvez porque estou muito habituado a todo o tipo de espantalhos, e ‘espantalhas’. Além disso, considero que não faço parte de nenhuma espécie de passarada ou bicharada, para ter medo dessas coisas. Logo, não fico ‘apardalado’, mesmo que me apeteça entrar na horta de alguém espantado.
 Espantar-se é uma situação comum em determinados animais que, estando muito tranquilos, a comer ou a dormir, são subitamente surpreendidos, por ruídos ou barulhos a que não estão habituados. Daí que se assustem, ou que se espantem, e fujam com o rabo entre as pernas. Atenção, que o rabo deles não é como o das pessoas.
Mas, estes animais e estes espantalhos, não têm nada a ver com os cartazes a que alguém, indirectamente, chama espantalhos, pois neles aparecem muitas letras formando frases engraçadas, algumas engraçadíssimas, em alguns casos, acompanhadas de grandes figuras de homens e de mulheres, que já não espantam ninguém.
Só tenho receio que quem se espanta com eles, esses rectângulos ou quadrados, considere espantalhos privilegiados, todos aqueles que a sua imaginação abençoou, e os confunda com grandes espelhos, frente aos quais concentra o seu olhar sereno.