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afonsonunes

afonsonunes

10 Set, 2009

No reino da bojarda

 

Apetece-me começar por dizer que vivemos num país onde a bojarda é rainha. Também me apetece dizer que, principalmente agora, dá muito jeito ter uma rainha de qualquer coisa, já que os reis e candidatos a reis, também de qualquer coisa, não estão a sair-se muito bem. Não sei porquê, mas cheira-me a esturro, no meio deste ambiente que devia apenas cheirar a fruta podre.
E digo isto porque a bojarda, com a sua rainha à frente, é uma pêra doce, muito sumarenta mas, quando está podre, aí parou. Já ouvi dizer que a fruta cai da árvore à medida que vai amadurecendo sem ser colhida na ocasião própria. Uma vez abandonada no chão, não tem alternativa que não seja o apodrecimento. É a lei da fruta.
Mas, tenho cá para mim, que a história da bojarda é outra, ou não estivesse eu a ouvir bojardas a toda a hora, vindas de todos os quadrantes da política, as quais me entram nos tímpanos já perfurados, quase em jeito de violação.
Depois há o mau hábito de ninguém rectificar as bojardas que diz, o que me parece de uma ‘bojardice’ lamentável, atendendo a que o reconhecimento do erro só dignifica quem o confessa. É assim uma espécie de arrogância, que os arrogantes usam, para com quem quase se ajoelha a seus pés, desfazendo-se em humildade.
Andam os ‘bojardeiros’ e ‘bojardeiras’ numa fona, em verdadeira competição, cada qual tentando descobrir a melhor bojarda para lançar no éter, a cada dia que passa, até chegar o grande dia em que se vai conhecer o melhor e pior de todos eles. Porque tenho cá um pressentimento que isto não vai ser pêra doce, pois adivinha-se muito difícil escolher entre tanta bojarda. Umas mais, outras menos sumarentas.
Algumas das outras bojardas são mesmo como as peras doces. São realmente muito sumarentas, totalmente isentas de acidez, provenientes de árvores enxertadas de modo a serem totalmente ao gosto dos incautos que engolem tudo sofregamente, sem degustar primeiro. Mais tarde, inevitavelmente, queixam-se de azia.
Impressiona a maneira como qualquer deles e delas anda numa procura constante das bojardas dos outros, esquecendo completamente a obrigação que todos tinham de evitar as que são da sua autoria. Talvez, suponho eu, considerem que não convém serem diferentes, para não ferir a sensibilidade dos tais que engolem tudo, sem chegar a tomar o gosto daquilo que engolem.
Porém, parece-me que há uma ligeira diferença entre o cheiro a esturro e o cheiro a podre, tal como há uma grande diferença na quantidade daqueles que sabem do que gostam, e é disso que comem, e aqueles que metem a língua em qualquer panela. Até porque o esturro aparece sempre no fundo da panela.
Se há coisa que o povo conhece bem, é o esturro da panela e o podre da fruta, não servindo sequer, qualquer deles, para pôr na vianda do porquinho caseiro.
Portanto, cuidado, muito cuidado com as bojardas, pois delas dependerá muito a eleição do rei ou da rainha da ‘bojardice’.