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afonsonunes

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O rapaz estava de micro frente à boca e tinha como paisagem de fundo uma vinha que se estendia a perder de vista na imagem que a televisão pública nos dava. Depois, surpreendendo toda aquela beleza natural, o rapaz atirou para o micro, qualquer coisa parecida com isto: estamos na festa das ‘vendimas’.
Bom, nunca devia ter visto uma vindima e, provavelmente, de vinhas, só saberá que dão uvas, que ele até já comeu. Quanto ao resto, o que é preciso é saber segurar o micro e não estar calado, que é para isso que lhe pagam.
Noutro local, concretamente no Sabugal, onde houve um grande e devastador incêndio que motivou uma visita presidencial de solidariedade, apareceu outro segurador de micros, fazendo a cobertura da visita. Normal esta aparição, pois é para isso que serve a televisão pública.
O que não é normal, é um segurador de micros, andar numa lufa-lufa, à procura de saber se as pessoas que estavam na comitiva, eram do governo ou próximas dele, e se tinham sido convidadas, ou estavam ali por sua iniciativa. Depois, quase escandalizado, o segurador de micros, dizia que as pessoas não quiseram esclarecer porque apareceram numa cerimónia de iniciativa presidencial.
Como se a organização dessa visita tivesse a obrigação de informar se marginalizou alguém e porque motivo o fazia. Como se as pessoas ou individualidades presentes, tivesse que justificar se estavam ali abusivamente. Como se o objectivo da visita fosse aquele que o segurador de micros lhe atribuía.  
Entre a ignorância do micro das ‘vendimas’ e a curiosidade pidesca do micro dos incêndios, há ainda um espaço de lixo televisivo, que até se atribui ao favorecimento de quem está a ser sistematicamente vergastado por ele.
Não tenho dúvidas de que também estes seguradores de micros não têm nada a ver com profissionais sérios e honestos que desempenham o seu trabalho dentro daquilo que lhes é exigido pela ética da comunicação social.
Quando a ignorância quer virar ciência, alguma coisa está profundamente errada. Quando a informação se troca pela coscuvilhice, alguém está a mais na profissão que escolheu. Porque quem só produz lixo, arrisca-se a virar lixo também.
E não adianta que muita gente queira fazer do lixo uma utilidade ou um princípio moral. Cada qual lá sabe as utilidades que lhe dão jeito. Pode vir a ser, sim, de alguma utilidade, mas apenas na perspectiva da sua submissão à regra ecológica dos três RR. Como produto final, lixo, é mesmo lixo.
Quem se sente bem no meio do lixo é porque já está viciado nele. Porque o lixo é uma espécie de droga, com a sua habituação, com as suas perversões, com os seus gozos e as suas ressacas. Mal das pessoas, mal do país, se tem de exaltar os valores do lixo para se purificar.
Mas, não há pior mal que haver quem meta profundamente o nariz na lixeira que outros criaram. Estes, depois, ao quererem acabar com ela, encontram a resistência desses narizes afinadinhos, dizendo que estava tudo bem. Argumentam que é um crime, ou quase, querer acabar com a lixeira.
Quem está dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro. Ou, quem está de fora racha lenha. E eu digo que, na minha casa, o lixo vai todos os dias para o contentor. Senão, começa a cheirar mal.
Até ao lavar dos cestos, é ‘vendima’.