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afonsonunes

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12 Set, 2009

Debates, é comigo

 

Tomei a inabalável decisão de não permitir que contassem comigo para as audiências das televisões nos longos quarenta e cinco minutos que duram os debates sobre as legislativas que aí vêm. Não é que me considere em greve televisiva mas, lá que tinha vontade de a fazer, lá isso tinha mesmo.
Já ouvi dizer que alguns desses debates foram muito esclarecedores. Só podem ter sido pessoas muito distraídas a dizer tal coisa. Quem se sente esclarecido com as banalidades ali produzidas, revela que não sabia mesmo nada da matéria. Quem foi capaz de aprender alguma coisa durante um qualquer debate, só pode sentir-se muito feliz, pois é de crer que ninguém conseguiu tirar-lhe o sono nos anos que já lá vão.
Porém, muito pior que tudo o que não sabia, é o facto de ter engolido uma data de equívocos, julgando estar a papar esclarecimentos, e julgando estar a aumentar o seu nível de conhecimentos. Sim, pois quem não sabe nada de nada, sempre vai aprendendo alguma coisa sobre o que lhe falam, mesmo que aquilo que lhe dizem, sejam daquelas verdades que, enfim.
O veredicto de, muito esclarecedor, normalmente, é ditado no sentido de muito vivo, tumultuoso até, não importando que isso seja conseguido à custa de trazer para cima da mesa, melhor, para cima da língua, umas tantas invenções mais ou menos odiosas, que só porque o são, já deram vantagem a quem as proferiu.
Estes debates são, muitas vezes, uma espécie de acção de esvaziamento da reciclagem, só que aqui não se ganha sequer um pouquinho de espaço no disco. Aqui, apenas, e já não é pouco, se deita fora o lixo mental que transborda ao contágio, também mental, de duas disquetes mais que cheias.
E, quando menos se espera, ainda aparece uma terceira disquete, essa sim, muitíssimo esclarecedora do programa que tem previamente gravado, como se ali, naquele ambiente de banquete, também se pudesse meter a colher, para tentar apimentar o debate.
Aliás, não é qualquer um ou uma que está em condições de debater, seja lá o que for. Porque debater pode ser saudavelmente bater e deixar bater, desde que isso seja feito com ideias antagónicas, mas que ambas as partes o façam com elevação e conhecimento fundamentado do seu acto de bater.
Para quem mais não sabe, acaba por tentar bater com o pau que traz escondido atrás das costas e, em lugar de debater, acaba em jeito de bater com a cabeça na parede, mesmo que arme em grande trauliteiro profissional, ao ter de puxar pelo pau que tinha escondido.
É por essas e por outras que, debates é comigo. Nem que tenha de aproveitar esse tempo para imitar alguns deputados que, em lugar de debaterem, fecham o olhito, inclinam a cabecita para a frente e lá vai um sonito ligeiro, em jeito de cabeçada, que alguns dos ocupantes das bancadas, acabam por perturbar com a sua voz mais descabelada.
Tenho a sorte de poder debater comigo próprio, qual o local onde posso passar os três quartos de hora da praxe, de olho fechado ou aberto, sem que tenha de meter óculos escuros à frente dos olhos.
Espero estar a contribuir para que os novos candidatos aprendam alguma coisa, pois debates, é o que eles mais vão ouvir fazer. Ouvir aos outros, porque eles, apenas vão barafustar, vão bater palmas, vão esbracejar, vão bocejar e, uma vez por outra, vão fechar o olhito, quando tudo estiver mais calminho.
Parabéns aos vencedores dos debates que, afinal, são todos os participantes. Ou já alguém os viu perder alguma coisa na vida?