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afonsonunes

afonsonunes

15 Set, 2009

O papão

 

Estou a ficar preocupado, aliás, muito preocupado, porque não consigo ter medo de ninguém, nem consigo descortinar alguém a pretender meter-me medo. Num país em que anda quase toda a gente a falar de medo, só posso ser eu o incauto, o inconsciente, o distraído, que não consegue ver os fantasmas ameaçadores que perseguem quase todos os portugueses.
Ainda bem que me lembrei que na língua portuguesa existe o vocábulo quase, senão teria de escrever que todos os portugueses andavam a tremer como varas verdes. De qualquer forma, como eu não sinto esse cagaço, nem me estou a ver envolvido nesse medonho cagaçal, peço encarecidamente aos que fazem como eu, que não se assustem por estarmos em minoria.
O mais engraçado é que quem muito fala em medo e tudo o mais que ele sugere, logo de seguida faz questão de dizer que não tem medo de nada, nem de ninguém. É caso para perguntar, se não tem medo, porque razão fala nele? Estou mesmo a ver que é só porque julga que os outros, coitadinhos, andam todos com o rabinho entre as pernas, logo, esses valentões e valentonas, não fazem mais que pôr o seu físico à disposição dos medrosos para os defenderem na primeira tentativa dos amedrontadores.
Ainda bem que me lembrei de dizer que será na primeira tentativa, porque ela ainda está para vir, logo, o físico deles e delas, ainda não foi posto à prova. Mais, se essa tentativa viesse a concretizar-se um dia, ou uma noite, quem sabe, o rabinho deles e delas, certamente, já estará mais escondido que o dos verdadeiros medrosos. Mas, calma, que o medo, por enquanto, ainda é só barulho.
Ainda bem que me lembrei de dizer ‘por enquanto’, porque o medo pode aborrecer-se de andar lá longe e, quando menos se espera, vir mesmo até nós, a chamamento daqueles e daquelas a quem ele está mesmo a fazer falta agora, aqui, e nestes momentos de aflição.
Ainda bem que me lembrei dos momentos de aflição, pois quem mais medo tem, maiores são os seus momentos de aflição, principalmente, porque se sente na obrigação de pegar aos outros, as suas maleitas e as suas tendências medrosas. Ora isso de pegar aos outros seja lá o que for, não é como essa brincadeira, de bom ou mau gosto, de pegar um bicho pelos respectivos.
 Ainda bem que me lembrei dos respectivos, sem os quais não podia haver uma valente pega de caras onde, infelizmente, elas ainda não entram, exactamente por causa dos respectivos. Assim, nada feito, porque só mete medo, e só aos que não são forcados, aquele que tiver os respectivos maiores.
Ainda bem que me lembrei dos forcados, porque eles são os maiores. Perguntem-lhes lá se eles têm mais medo de um bicho ou de uma bicha, na hora da verdade. É claro que todos eles responderiam que medo é coisa de cobardes, logo, há perguntas que só faziam sentido, se fossem feitas às chocas.
Ainda bem que me lembrei das chocas, porque sem os seus grandes badalos pendurados ao pescoço, a vida seria uma monotonia. Depois, aquele jeito que elas têm de se fiarem na velhice, como fonte de sabedoria, é mais uma ilusão confirmada pela certeza de que o bicho de verdade, não marra nas chocas lentas e rotineiras.
Nem sei como acabo de me lembrar que ainda há gente que tem medo. Tenho a impressão que me veio à memória aquele tempo longínquo, em que as senhoras mais velhas diziam aos miúdos pequenos - foge que vem aí o papão. Mas, agora, já não me imagino num país de papões.
Ah, lembrei-me agorinha mesmo. Vem aí o papão de Espanha e vai engolir todos os medrosos de Portugal.