Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

23 Set, 2009

A voz do dono

 

Tem-se falado muito em asfixia democrática e em controlo desenfreado de tudo e de todos, por parte do poder governamental. Não surpreende ninguém o facto de qualquer governo ter, no mínimo, a pretensão de querer as coisas à sua maneira, até porque foi escolhido para implantar o seu programa e não os programas dos que perderam as eleições.
Com certeza que há um ou outro exagero em todos os governos, mas é um facto que hoje cá, como lá fora, as regras são muito mais apertadas para que se cumpram normas que são fiscalizadas do exterior, diminuindo muito o risco de prepotências e abusos de que se fazem eco certas forças nacionais, muitas vezes sem qualquer razão.
Certa comunicação social tem muita responsabilidade em exageros de divulgação de certas situações que não conhece, ou empola de forma direccionada, com vista a obter determinados resultados que vão ao encontro dos seus interesses. Interesse privados, quase sempre em detrimento do interesse público.
Publica-se o que se vende e o que se vende nem sempre é verdadeiro, nem sequer sério, quanto mais esclarecedor e objectivo.
E o pior é quando a comunicação social pública vai pelo mesmo caminho da privada, fazendo-lhe concorrência, sobretudo no que é mau, no que não tem qualidade.
Uma boa parte dos jornalistas, vê-se que não desenvolve a sua actividade segundo os critérios próprios de trabalho e competência, porque os seus empregos dependem de quem lhes lê a cartilha e, muitas vezes, nem precisam que lhes leiam nada, porque quando entram já sabem ao que vão. 
Claramente, quem paga, exige. Sabendo-se que a fofoquice, a mentira, as meias verdades, as deturpações, as notícias do tipo novelístico e quejandos, são o ouro do negócio, logo, não há como fugir a essas tentações contabilísticas.
Depois, para que não dê muito nas vistas arranjam-se uns bodes expiatórios para cima de quem se atiram todas as culpas, contando com a cumplicidade de uma justiça que não funciona, porque ninguém é capaz de a fazer funcionar. Porque não interessa mesmo nada que ela funcione. Com a miserável excepção de que ela funciona apenas contra quem não tem dinheiro para enterrar nela.
É por isso que funciona, e bem, a voz do dono. Mas, quem é o dono, que tanto levanta a voz que não ouvimos, que tanto domina sem que se assuma como dominador, que tanto acusa a quem, ao fim e ao cabo, anda simplesmente às suas ordens.
Evidentemente que a voz do dono é a voz do dinheiro, é a voz que dá emprego ou despede, que controla o que se diz, o que se vê e o que se ouve, fazendo crer que há um estado que lhe corta ou prejudica a actividade.
E há quem entre nessa de que o estado é que provoca asfixia, democrática, para soar melhor, como se no estado fosse possível alguém, seja lá quem for, abafar toda uma estrutura complicadíssima e enormíssima, onde todos os que mandam não são todos, e apenas, ouvidores da voz de um só dono. Até porque muitos desses, também têm tiques de donos e fazem orelhas moucas às vozes de outros donos.
Quem pensa nessas asfixias, talvez sinta desejos de vir a ser um belo dono. Mas bem pode tirar o cavalinho da chuva. Há muita gente asfixiada, mas por outras razões, que não as que invocam os candidatos a donos. São os que adoram ouvir a voz do dono deles.