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afonsonunes

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25 Set, 2009

O e-mail de S.Bento

 

“Caríssima doutora – Mando-lhe este e-mail mesmo nos últimos segundos da campanha, porque estou completamente desesperado e não teria coragem sequer de ver publicada uma resposta sua, a estas minhas palavras, que são uma espécie de desabafo à boca da urna.
Confesso que tenho uma grande admiração por si e pela sua obra passada, presente e futura. Sim, é verdade, confesso que, como engenheiro, nunca faria obra melhor, embora julgue que como principiante de economia me tenho portado melhor que a doutora.
Mas, em política o que interessa é a obra e a doutora foi, é, e será sempre, realmente, uma obreira de respeito. Daí, esta minha última homenagem, porque, consigo, prometo, nunca mais me vou meter, atendendo aos banhos que tive o prazer de levar de si, ao longo destes últimos tempos.
Reconheço que, para se conseguir vencer na vida, e na política, é preciso ser um obreiro nato, obrar pelo menos uma vez ao dia, com vista a ser um bom obrante e fazer uma obragem que se veja. Note que até em português eu sinto um complexo de inferioridade tremendo em relação à doutora. A doutora exprime-se bem e depressa, enquanto eu, inoperante, apenas alinhavo umas palavras desenxabidas.
Em lugar de engrolar este e-mail rasca, ainda pensei em inventar uma espécie de bomba atómica para terminar a campanha mas, quem sou eu, para inventar uma simples peta doméstica. Não, afirmo solenemente, atrevo-me mesmo a fazer mais uma promessa, que é terminar esta campanha com verdade, muita verdade, seguindo o seu exemplo, que muito dignifica quem anda nestas andanças dificílimas da política séria, como nós.
Confesso também que a minha maior virtude é saber escutar, escutar e sempre escutar. Porque escutando, posso estar sempre em condições de seguir os bons exemplos e os bons conselhos que me dão. Sim, porque era o que faltava, se desperdiçasse as novas oportunidades que me oferecem a toda a hora.
Sei que já estará em pulgas para saber onde quero chegar com toda esta treta de e-mail mal amanhado. Para já, tenho estado a engonhar, para que chegue a hora de fecho da campanha e a doutora esteja entretida a ler isto até dar a meia-noite. Depois, também quero fazer uma espécie de revelação de última hora, a fim de que a votação não venha a ficar influenciada pelos meus dislates anteriores, o que seria tremendamente injusto para as suas inspirações e até, confesso, para as suas justas aspirações.
Antes, porém, ainda quero dizer que houve muito quem falasse numa campanha suja, numa campanha de favores, numa campanha de verdades e de mentiras. Bem, se ela foi suja, não foi da sua parte, doutora, bastando olhar para todos os que andaram à sua volta. Tudo gente limpinha. Se houve favores, só me lembro das pessoas que andaram atrás de mim, fazendo o favor de me aplaudir. Quanto a verdades e mentiras só me lembro das parvoíces que eu disse de mim próprio.
Portanto, chegado a este ponto crítico deste e-mail fatídico, declaro que todos os votos que eu tiver, devem ser acrescentados aos seus, para que possa formar um governo de maioria confortável, para dar estabilidade aos seus sonhos de voltar a levar o país, ao ponto em que o deixou da outra vez.
Tenho a certeza de que, como sempre, as portuguesas e os portugueses me vão compreender perfeitamente. Os meus respeitos, doutora.”