Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

30 Ago, 2008

Os três Josés

 

 
O nosso país tem Josés que nunca mais acabam, e ainda bem, pois além de ser um bonito nome, os factos provam que não seríamos os mesmos, se alguns desses felizardos cidadãos não se tivessem cruzado com os nossos destinos. Vamos ao primeiro sem mais delongas.
Bom José Primeiro, vulgo, Zé Manel, começou a sua aventura de reinação por volta de 2001, quando ele próprio nem sonhava, ou melhor, quando ele apenas sabia que havia de conseguir, mas só não sabia quando. Ficou a saber então.
Convém esclarecer que este Zé Manel não tem nada a ver com o Zé Manel, benfiquista, taxista, que ronca pela voz da Maria. Não, aquele, não paga bandeiradas porque teve e tem motorista sem horário e bem remunerado.
Sucedeu a um António infeliz, marcando pontos, logo aí, por se chamar José. Era obrigatório ter sorte, não só para ele, mas também para nós, nobre povo, a precisar de heróis valentes, para tirarmos a barriga de misérias e irmos todos de férias metade do ano para a Serra da Estrela e a outra metade para o Algarve.
Bom José Primeiro, o Zé Manel, acabou por não nos dar nada, porque lhe ofereceram férias, a ele, durante o ano inteiro. É claro que nem hesitou e foi-se. De vez em quando ouvimos falar dele, em várias línguas. A ele, só o vemos nas televisões e lemos as legendas que traduzem o que ele diz.
Em 2005, depois de rocambolescas nuances teatrais, surgiu o José Grego, com uma armadura mesmo dura, uma espécie de carapaça, à prova de bocas e piropos, para enfrentar a guerra que alguns romanos do tempo de Nero, logo fizeram questão de lhe declarar.
Não é fácil ser grego em Portugal, até por causa do fatídico eurofutebol mas, principalmente, porque José Grego fechou os olhos e seguiu em frente, como se caminhasse sobre as águas revoltas do Mar Egeu, com toda a tranquilidade. Muita gente se tem visto grega para lhe aguentar a pedalada, mas ele continua a correr, cá dentro e lá fora, mostrando que é mais português que grego.
Têm-lhe chamado muitos nomes, alguns nem sequer constam da enciclopédia luso brasileira, mas ele diz que já está habituado e que, como é grego, nem sequer percebe o que lhe dizem.
Ao contrário, há apreciadores da sua linguagem referindo que ele só é grego no nome, pois em tudo o resto é português, mais teimoso que Vasco da Gama e muito menos cego que Luís de Camões.
Sinceramente, eu é que estou a ficar grego.
O terceiro José, o Zé do Pisca Pisca, é bem mais castiço que os dois anteriores, até porque está muito mais vezes diante de nós, a olhar-nos de frente e a falar como se tivesse muita familiaridade com todos os portugueses.
O facto de o vermos em tamanho reduzido e numa espécie de moldura colocada num local estratégico lá de casa, não quer dizer que ele seja mais pequeno que nós. Não, pelo contrário, ele é o maior. Fala com uma autoridade superior, agita-se na cadeira de onde nos fala, vemo-lo olhar-nos de lado por causa da imagem, sublinha as frases com tremeliques na voz, estica o pescoço e meneia o corpo como se ensaiasse uma modalidade original de dança do tronco, género dança do ventre.
Numa palavra, comunica muito bem, usa o corpo todo e, ainda por cima está armado. É verdade, na mão tem sempre uma caneta, ou esferográfica, que aponta de bico em riste na nossa direcção, bem ao jeito de uma permanente ameaça.
Curiosamente, depois de tudo dito, sorri maliciosamente e… pisca-nos o olho. Sempre o olho direito. Até já há quem reivindique para si, em exclusivo, tão terno piscar de olho.
Boa noite… ( aponta a arma ) Voltamos a ver-nos amanhã…