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afonsonunes

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Quem alguma vez pensou que havia apenas disparates de Verão, enganou-se redondamente. Nem o calor escaldante desses dias a bater nas cabecinhas descobertas justifica tal suposição. A verdade é que no Outono também a chuva, a escorrer pela testa abaixo, não chega para esfriar os excessos de imaginação.
Eu, com toda a naturalidade, concluo que os disparates também podem aparecer na Primavera e no Inverno. No entanto, aqui e agora, apetece-me mesmo falar, quero dizer, escrever, sobre um disparate de Outono, que corre o risco de ser considerada uma descoberta inovadora no nosso submundo da política.
Ora então vamos lá a isso. Acabamos de votar e já estamos a atravessar uma contrariedade dos diabos, que é, a formação do novo governo. Tudo indica que serão os partidos menos votados, mas ganhadores, que vão indicar os nomes dos ministros.
Destes, há os que ficam porque, tendo-se portado mal no anterior governo, são mais ou menos simpáticos, e há os que nem vê-los, porque são casmurros ou casmurras, logo, só devem olhar para trás quando já estiverem dentro das suas próprias casinhas, com a porta fechada à chave.
Os restantes ministros, quanto menos melhor, devem ser escolhidos numa assembleia-geral de partidos, presidida pelo partido mais votado, ou seja, o partido perdedor, que apenas poderá sancionar os nomes que lhe forem propostos, sem direito a veto de qualquer dos escolhidos pela assembleia.
Caberá depois ao presidente, dizer o que cada um deles deve fazer, dado que conhece muito bem todos os dossiers e os portugueses conhecem-no muito bem a ele.
Para garantir a estabilidade da governação, o presidente irá chamar o primeiro-ministro para o instruir sobre o resultado da revisão dos programas de todos os partidos, todos eles adaptados às circunstâncias especiais de ninguém ter conseguido uma maioria absoluta.
Assim, o programa de governo será o resultado do que restar dos cortes nos programas dos partidos, obedecendo a uma regra baseada nas percentagens de votos obtidos, ou seja, quem obteve trinta e seis por cento de votos, terá direito a incluir trinta e seis por cento do seu programa, no programa do governo. Quem obteve vinte e nove por cento de votos, incluirá essa percentagem do seu programa.
E assim sucessivamente, em relação aos restantes partidos. Feitas as contas do contributo de cada um deles, estabelece-se como mínimo, uma medida descrita em cinco palavras, para não retirar clareza ao programa final.
Que ninguém pense que vai ser difícil encontrar articulação nas medidas escolhidas, garantia que está salvaguardada no bom senso, no poder auditivo, na superior mediação presidencial, que ninguém ousará contestar, mesmo aqueles que estão cientes de que os votos obtidos, são para garantir o que prometeram ao seu eleitorado.
Mas, se mesmo assim ainda houver quem se esqueça destas regras, alguém levantará a voz imponente e dura, dizendo com toda a clareza – Sou eu que estou mandando! ...