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afonsonunes

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O folclore vai entrar de férias à meia-noite e, segundo tudo indica, vai permanecer assim durante um ano e picos. Pode dizer-se que são umas férias prolongadas mas também ninguém ignora que há sempre quem não seja capaz de estar quieto e calado, mesmo quando podia e devia estar no merecido ripanço.
Como estou a pensar no folclore eleitoral, é evidente que não vai haver férias, prolongadas ou mini, seja lá para quem for pois, para uns tantos que eu cá sei, isso seria um sacrilégio de lesa pátria. Pois que haviam eles de fazer, se não pudessem bater no bombo da festa, nem pudessem ter uns tempos de antena diariamente, ainda que seja a tocar pífaro e a cantar as modinhas de sempre?
À meia-noite entra-se no sagrado período de reflexão que, segundo a lei em vigor, dura até domingo à tardinha. Não sei se alguém vai reflectir sobre alguma coisa do que manda a lei, mas sei de certeza que eu gostaria de reflectir sobre a possibilidade de, por determinação da lei, se pensasse mais no trabalhito e menos nas parvoíces eleitoralistas que já ganharam o estatuto de permanentes e, na minha opinião, a tender para a inutilidade.
Se eles entrassem de férias, seria assim como passar do folclore para a ópera. Não é desprestigiar o folclore, mesmo o dos bombos e dos pífaros reais ou fictícios, mas dar também a oportunidade aos apreciadores da ópera, dos artistas mais requintados, de não serem obrigados a gramar apenas folclore que, quando chato, excessivo e de má qualidade, incomoda que se farta.
É assim este folclore de rua, com altifalantes em altos berros, berrando sempre as mesmas conversas, velhas de morrer, tal como os velhos propagandistas das feiras que dão tudo e mais alguma coisa, até terem a assistência suficiente para começarem a pedir dinheiro pelo produto.
 Infelizmente, este folclore eleitoral é um produto rasca, é um produto mental de gente sem mente, mas que mente por todos os poros, enrolada na ganância de conseguir aquilo que considera ser o seu insubstituível modo de vida, mais o das lapas que andam agarradas a ela, como sanguessugas na pele dos seus sugados.
Bem podem chamar a isto, cumprir a democracia, cumprir a lei, cumprir o calendário, ou cumprir deveres ou direitos cívicos mas, o que não se cumpre, é o respeito devido a todos os vencidos e a todos os vencedores, cada qual na sua capacidade e na sua qualidade de contribuintes para que o folclore dê lugar à ópera, ou o reboliço seja substituído pela tranquilidade.
Bem sei que o folclore tem as suas raízes no povo simples e modesto, enquanto a ópera é o folclore das elites cultas e endinheiradas. Também sei que o povo não tem dinheiro para operetas, quanto mais para óperas. Sei ainda que o folclore do povo é operário de instrumento e não ópera de chefe ou de patrão de batuta sempre na mão.
Mas, que ninguém se esqueça que música é sempre música, em qualquer lugar ou em qualquer condição. Folclore e ópera para todos os que quiserem, gostarem e puderem fazer a sua escolha. Sem serem empurrados, ou até violentados, a ouvir e a ver o que não querem, não gostam e até chegam a ter ódio a quem lhes quer impingir o que eles sabem que não presta.
Todos sabemos que o bom folclore e a boa ópera nunca geraram ódios.