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afonsonunes

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11 Out, 2009

Ainda não é Natal

 

Na semana que decorre entre o dia de Natal e o dia de Ano Novo é pouco provável que haja demissões no governo. Vive-se uma semana excessivamente agitada, devido ao rescaldo das fartas festas da família, a que se junta a preparação das extravagantes festas da passagem do ano. Especialmente, nesta passagem de dois mil e três para dois mil e quatro, em que vai todo o mundo sair da abundância, para entrar na extravagância, tal é a sede de regar tudo e todos com montes de garrafas de champanhe. Mas não faz mal, pois quem não é optimista, não é amigo do José e este final do ano vai ser comemorado em grande, por ele e por todos os seus amigos. Será o primeiro, dos dez anos que ele pretende ficar sem contestação, à frente de toda a Europa, ao leme do barco da vanguarda, como supremo comandante de espada em punho, contra os infiéis que alguma vez duvidaram das suas certezas, os quais não passam de uns mortos de fome. Daí que a festa do José não seja para esses.
Os convidados já estão todos a postos, bem dispostos e preparados para comerem as tradicionais doze passinhas de uva cada um, depois de formularem o desejo comum de repetirem a festa nos nove anos seguintes. Na companhia dele e da Uva...
Lá estão Protas e D. Manela, discutindo as divergências de previsão do custo de um submarino americano e outro alemão, ambos com marcha atrás, e limpa parabrisas. É uma daquelas conversas de mata tempo e mata bicho, nos banquetes importantes. Ele ri que se farta por causa da festa, ela tem a testa às riscas e a boca um pouco aberta, por causa das despesas da festa que não teve coragem de cortar.
Demorais discute com Renault, por causa das transmissões televisivas do Euro 2004. Demorais quer ver tudo na extinta dois. Renault diz que não acredita em fantasmas. Entretanto, chega super Mário e diz-lhes que vão ter de pôr restrições às imagens televisivas, quando os bastões dos espanhóis entrarem a desbastar nas bancadas. Tudo por causa das cadeiras coloridas, que tornarão difícil identificar os alvos.
Bragão aproximou-se de Celestre e deu-lhe um paternal beijo na testa dura. Ela fez-lhe justiça e agradeceu cordialmente de mão beijada. Ali perto, Protas olhou e sorriu. D. Manela também olhou e, interiormente, pensou: ‘mas que trio’.
Justinho e a colega superiora Gracinha, estavam com um pequeno problema financeiro. Ambos afirmavam: ‘não pagamos’, mas não se descortinou qual era a factura da conta em discussão. Como é hábito haver problemas com os impostos, quem sabe... seria isso? Bom... se fosse, podia haver demissões à vista se, por acaso, o José viesse a saber. Talvez não! Ele não costuma ligar a essas coisas sem importância.
Caramona metia uma azeitona na boca, com palito e tudo, como aperitivo para as doze passas que já tinha fechadas na mão esquerda, a que fazia menos falta na ocasião. Deu uma olhadela por todo o tecto, lembrou-se das pontes que caíam por todo o lado e perguntou a si próprio: ‘estarei aqui em segurança?’ Olhou para José durante uns momentos e pensou: ‘se ele não cai, eu também não’.
Figueira do Lopes estava um pouco a destoar na cerimónia. Tinha acabado de chegar do Iraque e, com a pressa de chegar à festa, esqueceu-se de despir o camuflado. Ainda era visível a areia e sentia-se o cheiro a petróleo e a suor, apesar de estar habituado ao calor, desde o Verão passado. Olhando para o lado, viu um bombeiro com a farda de cermónia, com muitas divisas. Lá teve de fazer a continência da praxe.
Peneira e Tabares tentavam descobrir se seria preferível meter saúde na indústria ou indústria na saúde. A discussão não era pacífica mas Peneira levava vantagem, pois parecia tratar da saúde a Tabares e sua indústria. Peneira até é capaz de tapar o sol...
Senhor de Telhas fazia queixa ao empregado de mesa por causa do fumo que toldava o ambiente da sala e o obrigava a ficar com tosse num momento tão distinto. Já em tempos havia tido más experiências quando lhe deu na telha de ter tosse na floresta, quando não devia. Mas aguentou, embora toda a gente tivesse ficado com a impressão de que, se houvesse outro à mão... ele teria levado o pontapé de saída... para outra freguesia.
Como não há festa sem fidalguia, ali estava Marquês Mentes, discursando para meia dúzia de convivas. O assunto tinha a ver com uma mensagem do presidente. Os convivas haviam estranhado as críticas ao governo. Marquês Mentes rebatia, dizendo que o presidente, não só não fez críticas, como teceu rasgados elogios e até tinha repetido o que ele, Mentes, havia dito há dias. Ficaram seis com os olhos trocados.
José, não cabia em si de contente e mostrava exuberantemente a felicidade de voltar a ter a seu lado, os grandes amigos, Desaltino, Dacruz e Linse, todos jubilados inesperadamente, mas medalhados por bom comportamento. Por isso ali estavam, para comer as passinhas e desejar que José tenha dez anos de sucesso, para que eles, os grandes três amigos de José, possam ter dez anos de sossego. Tudo se tapa, mesmo o que não escapa ao olho do mais perspicaz dos linces!
Aproximava-se o momento das doze badaladas e também o momento de trincar as doze passas mastigadas com os desejos mais ardentes que, todos acreditavam, seriam transformados na realidade que aí vinha a toda a velocidade, ao encontro de todos eles. Nem podia ser de outra maneira, pois José nunca se engana.
Firme e decidido como sempre, José pediu atenção a todos os ilustres convidados e as conversas terminaram ali. Sorridente e confiante, anunciou que ia desvendar o caminho a seguir, logo após se esgotar o último minuto do ano.
Todos ficaram extremamente curiosos porque, finalmente, iam saber para onde José os estava a levar. Sim, de qualquer modo, eles sabiam que estavam a ser levados! Só não sabiam ainda, para onde... embora já tivessem falado com os seus botões.
Portas e janelas fecharam-se rapidamente, pois as doze badaladas finais, não tardavam a soar. A partir delas, tudo o que vai passar-se na casa de José, é um segredo que ninguém se atreve a prever. Tem sido tão difícil prever!
Os amigos íntimos de José estão prestes a saber para onde vão. E os outros?...
Precisamente no momento em que nasceu dois mil e quatro, acabou esta conversa que, também ela, não tem futuro mas tem, obrigatoriamente, de ter um fim.
 

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