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afonsonunes

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Em boa verdade gostava de ser muita coisa mas, ao contrário de muitos que só gostavam de ganhar bem sem fazer nenhum, eu gostava mesmo de dar um pontapé nas conveniências e nas coisas que deviam ser esclarecidas sem gaguez e sem aquela declaração vergonhosa de que um dia alguém vai dizer tudo.
Não posso compreender que alguém saiba coisas muito importantes para a vida de muita gente e se negue terminantemente a falar e, muito menos, com o argumento de que não pode falar. Se será medo ou garganta entupida não sei, mas tenho receio que esteja em causa o emprego, que talvez seja um bom tacho.
E aqui não podem atirar-se ao governo ou ao primeiro-ministro, como costumam fazer os que mais atropelos cometem. Aqui estão em causa responsáveis por coisas sérias, coisas que tantas vezes põem em causa a seriedade dos outros, sem verem que são eles próprios que não estão a ser sérios, nem com eles próprios, nem com aqueles que lhes sustentam o negócio.
Nada pior que viver num país enganado, principalmente se andar a ser enganado por quem devia correr com todos os enganos. Precisamente por quem devia ‘falar claro e mijar direito’, como diz o povo quando se sente enganado por alguém, ou a quem quer dizer que lhe merece toda a confiança.
É por isso que eu manifestei o desejo de ser jornalista, embora reconheça que, à partida, não tinha hipóteses de escrever nada que não fosse apenas para mim próprio, porque já se sabe como é. E, sendo assim, como é que eu poderia algum dia ter aspirações a subir na carreira, como por exemplo ser chefe, ou director, se não me deixassem publicar nada.
Mas, sem dúvida, gostava de ser jornalista, ao menos para saber como é que se fazem certas maroscas, mesmo que isso passasse apenas a fazer parte da minha cultura geral que, ao menos essa, ninguém me poderia tirar. E estou certo que daria sempre jeito, pois ainda que ninguém me ligasse nenhuma, sempre podia conversar com os meus botões, muito mais tolerantes, atenciosos e pacientes que certas pessoas.
Já que falo nos meus botões, sempre digo que eles nunca me disseram que têm falta de liberdade para falar, que sofrem de uma ou outra asfixia, que vivem atrofiados de medo, a ponto de deixarem aberto aquilo que deviam fechar. Não, os meus botões fecham quando eu ordeno e abrem quando eu mando. Tudo na melhor atitude democrática.
Mas, o acto de abrir e fechar, é como quem abre ou fecha uma torneira. Ou sai água, ou não sai nada. Não há cá meias tintas pois, quando muito, elas também deitam ar, mas isso é quando estão abertas e alguém fechou a água a jusante. Nesse caso, ouve-se o tal ruído semelhante à gaguez de quem quer falar e não pode.
Ai se me deixassem ser jornalista como eu desejava… Seria completamente diferente do normal, a minha atitude perante quem me encomendasse trabalho. Trabalho que seria tão anormal, que ninguém acreditaria que eu estivesse a falar a sério. Porque sérios, sérios, seriam aqueles em quem eu nunca acreditei.
Contudo, concordo que nenhum jornalista me queira levar a sério.