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afonsonunes

afonsonunes

18 Mar, 2017

A fibra e o cinismo


Fico espantadíssimo ao ler coisas que os seus autores deviam ter vergonha de os dar à estampa. É que, uma coisa é falar daquilo que nos enobrece, outra bem diferente, é trazer para a praça pública vergonhas que nos aconteceram e tentar transformá-las em actos de nobreza reveladoras das nossas desqualificações.

Cavaco não deixa de nos surpreender pela negativa, muito mais do que nos surpreendeu a esse nível, especialmente no seu último mandato. Diz ele agora que, o facto de não ter sido popular na comunicação social, mostra bem a fibra de um presidente. O presidente Cavaco Silva. Ele mesmo. O próprio.

Sempre ouvi dizer: gaba-te cesta que hás-de ir à vindima. E Cavaco está a gabar-se de ter tido fibra fora do comum, no seu desempenho de presidente. Eu diria que, fora do comum, sim, mas na presunção e na convicção de que foi uma espécie de exemplo para o país. Na minha perspetiva, um péssimo exemplo.

Creio que a minha perspetiva não anda longe daquela que tem a generalidade dos portugueses. A demonstrá-lo, para além de outras, as surpresas que revelou no seu livro de memórias infelizes. Que, segundo dados que os portugueses retiveram nas suas próprias memórias, as exuberâncias cavaquistas não pegaram no espírito do povo.

Poderia dizer que o cinismo atroz é o tema forte destas linhas que aqui deixo hoje. Passos Coelho, no seu atual tom de excitação e desespero evidentes, considerou que a CGD, ao anunciar fecho de delegações, revela que os partidos de esquerda, Bloco, PCP e PS, manifestam um cinismo atroz. Como se estes partidos tivessem agora voz na Caixa, como Passos teve no tempo da imoralidade e do seu afundamento.

Se esse estado de consciência significa alguma coisa na política portuguesa, então a defunta PaF está indubitavelmente à frente, mas a muitas milhas à frente, pelo que fez ao país e aos portugueses. Para Passos e seus já poucos seguidores, já não lhes bastam as mentiras descaradas que ainda pensam impingir.

Acresce a teatralidade com que faz acompanhar as tristes intervenções que vai tendo em público, ao jeito de Cavaco, na ânsia de ver alguém acreditar no que dizem agora, tal como fizeram acreditar no tempo em que falavam com uma ternura, uma meiguice, de lobos maus a cativar criancinhas inocentes.

Se há coisa de que os portugueses já não precisam, é de histórias de fadas ou de diabos. O país tinha que mudar e está a mudar. Muito lentamente, porque o ritmo está condicionado pelo desastre anterior. Mas, o percurso errante está substituido por um caminho difícil, mas muito mais esperançoso que aquele que nos conduziu até aqui.

Sem fibras moles, nem cinismos atrozes.