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afonsonunes

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As palavras saem da boca e o vento tenta entrar pela boca dentro. Eis uma situação conflituosa, pois as palavras acabam sempre por sair e o vento nunca consegue entrar. Mas o vento acaba por levar as palavras com ele.

Palavras, leva-as o vento, diz o povo. As palavras, só por si, não valem nada, se não forem ditas por gente de palavra. Há quem afirme que não se lembra do que disse ontem. Porque ontem disse o que já negou hoje.

Há quem já não se lembre se, quando era jovem, o pai lhe dava mesada. Mas lembra-se dos primeiros cigarros que comprou e das vezes que ia ao cinema. É assim a memória desta gente. Lembra-se só de quase tudo.

Mas, tudo isso tem remédio. Quem quiser saber se o pai lhe dava mesada, que vá perguntar aos seus amigos de infância que o ajudavam a fumar os cigarros e iam com ele ao cinema. Eles, sim, sabem responder a isso.

Mas, se acaso alguém mais teimoso quiser falar com ele sobre a mesada, pode contar com a sua colaboração. Dirá tudo o que sabe com o maior gosto: que não se lembra. Que perguntem aos amigos. É fácil. Muito fácil.

Quando vêm atos eleitorais há candidatos que se desfazem em palavras. Berram, gritam, atiram-se aos adversários, insultam, atraem as atenções, mostrando a sua fibra lutadora. Tudo é levado à conta de um programa.

Outros candidatos são mais comedidos, falam seriamente e sabem do que falam. Porque só falam do que sabem. Quem os ouve não gosta. Diz que não têm ideias. Que não têm programa. Que não dizem o que vão fazer.

Palavras, palavras e mais palavras. Quem promete, berra até ficar rouco e só fala dos seus adversários, é bom. Quem só fala de si e das suas ideias, é mau. Depois dos votos contados, as campanhas são sempre uma mentira.

A verdade é que há quem não pense nas palavras que atira ao vento. Ninguém esquece donde lhe veio o dinheiro que teve. Tal como ninguém fará nada com palavras que não fazem obra, nem darão pão a ninguém.