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afonsonunes

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O sistema governativo do país, digamos que o sistema tradicional onde um presidente que fala e exige tudo o que lhe apetece mas não é responsável por nada, bem como de um governo que é obrigado a satisfazer todas as exigências e inventar dinheiro que não o deixam cobrar, tem forçosamente que vir a ser modificado.

Esta ideia de que o governo tem de desempenhar todas as tarefas e obedecer a todos os pequenos ditadores de todas as atividades sociais, económicas e corporativas, principalmente aquelas que não agradam aos mais exigentes, está completamente ultrapassada. No entanto exige-se que o governo seja responsável por tudo o que de mau acontece no país. Mesmo aquilo que não desejava fazer.

Portanto, é urgente que se clarifique de vez, quem é responsável pelas tarefas que cada um executa e quem tem de assumir a responsabilidade política das tarefas que outros desempenham. Se um primeiro-ministro é responsável politicamente porque nomeou um ministro, porque raio um presidente da República não é responsável por ter dado posse a esse governo?

Muitos exemplos se poderiam citar. Os partidos da oposição, ou das oposições, exigem tudo do governo. Mesmo aquilo que não fizeram quando eram poder, ou não contestaram quando o poder era outro. Os sindicatos exigem e forçam governos a aceitar reivindicações que levam, e já levaram, a situações económicas de consequências conhecidas.

Orgãos de soberania, como magistrados e ministério público, ameaçam e concretizam greves, contra outro órgão de soberania, como o governo. O presidente da República, a quem cabe a responsabilidade de garantir o bom funcionamento das instituições democráticas, assiste diariamente a guerilhas institucionais e limita-se a emitir mensagens dúbias, quase sempre a deixar a impressão nas oposições de que é ao governo que compete resolver todos os problemas.

O caso dos incêndios do ano passado e deste ano, tal como o caso de Tancos, são paradigmáticos. Contesta-se a atuação de ministros e do primeiro-ministro, como se lhes coubesse apagar incêndios, talvez de mangueira na mão, como se não houvesse Comandante Supremo das Forças Armadas, Comandos dos três Ramos das FA, Proteção Civil, corporações de bombeiros, Câmaras Municipais, Sapadores Florestais, Freguesias, a quem pedir responsabilidades.

Quanto aos sindicatos, teriam todas as razões para ser exigentes na defesa dos seus sindicalizados, se não proliferassem como cogumelos, só para para usufruir de regalias mais que escandalosas dos seus dirigentes que pouco mais fazem que exigir rigores que eles não conseguem mostrar aos pagantes cidadãos. Nem é preciso falar de Educação, polícias, juízes, magistrados... nem da politiquice que por ali se instalou a olhos vistos.

É preciso mudar o sistema. É preciso coragem, muita coragem, para mexer em tanta coisa, desde as coisas mais complicadas como as da justiça, às mais fáceis, como o futebol. Aparentemente! Mas à luz da legalidade, quem tem poder para tanta coisa? Pois, infelizmente, quem tem poder para falar de quase tudo e não é responsável por nada, ignora tudo o que resta para lá do quase.

Quando se fala de demissões, de responsabilidade política, de culpas, de culpados, fale-se de responsávais por tarefas concretas e de demissões de quem falhou na execução de tarefas concretas. Empurrar tudo sempre para o mesmo lado, cheira-me a cobardia de quem vive à sombra dos outros e se esconde sempre que devia olhar para o que faz na vida.

Parece que toda a gente, dessa gente, está com profundas saudades de tempos ainda bem vincados na memória recente das classes desprotegidas deste país.