Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

17 Nov, 2015

Candura

 

Não há mortal que não tenha o seu momento de candura. Por mais empedernido que se tenha mostrado ao longo da sua vida. Por mais que se tenha sentido odiado e por mais que ele próprio tenha odiado outros.

Pensei nesta realidade ao ver o enlevo de um homem com uma cagarra entre as mãos, à frente dos seus olhos bacentos, muito perto de uma boca aberta, perto de lançar a ave para o espaço que não era do homem.

Antes disso, alguém prendeu essa cagarra, talvez com pouca candura, e a segurou para que o tal homem lhe atarraxasse uma anilha numa das patinhas. A cagarra não ganhou para o susto. O homem não mudou nada.

Ontem e hoje, o homem não olhou para o céu tentando ver se vislumbrava a cagarra anilhada. Esta, por sua vez, não ligou nenhuma ao homem que um dia lhe pregou um valente susto. É assim a vida selvagem.

Por estes dias, também tenho pensado muito na candura dos homens que têm dinheiro a mais e inteligência a menos. Estes homens continuam cegos na perseguição de mais dinheiro. Mas, a inteligência não cresce.

Apesar de não se poder dizer que se trata de ignorância pura e dura. Não! Muitos deles até tiraram cursos, uns mais superiores que outros, alguns bastante tardios, outros muito precoces. E não aprenderam nada da vida.

Daquela vida que não devia provocar revoltas nem revoltados. Criar seres humanos que se transformam em assassinos insensíveis, que matam onde veem o prazer e o dinheiro que eles nunca puderam ter. E matam-se ali.

Porque sabem que nunca ouvirão palavras de esperança. Sabem que a vida não é para eles, mas para todos aqueles que não sabem ler as leis, a própria Constituição, o que lhes devia dizer a sua própria consciência.

Diz o homem que é preciso mais meios para os combater. Sim, a começar por mais meios para desencorajar esta sede de desespero e de vingança. Por cumprir os seus deveres. Sim, porque toda a gente tem deveres. Toda.

Isto, sem abdicar da necessidade de uma justiça que olhe para todos com a mesma equidade. Crime é crime. Castigo é castigo. E, criminoso, é também quem defende o arbítrio, o ódio, a vingança, a discriminação.

O mundo, o país, não é só dos mais radicais inconsoláveis, quando perdem os seus privilégios. O mundo é de todos os cidadãos que querem que os ignorantes aprendam as regras. Que aprendam quando não têm razão.

O homem e os seus idolatrados, mais próximos ou mais afastados, que se lembrem que a vida, assim, está sujeita a desmaios mais ou menos frequentes. Cuidado que essa vida é um perigo. Para o homem e para vós.