Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

16 Abr, 2014

CUEILHADA

 

 

Um cueilho genuíno, mesmo estufado, nunca se deve confundir com um gato, por mais temperos que se lhe metam no tacho. Depois de esfolados, cueilho e gato, são parecidos, mas nos tachos não.

Porque cueilho é cueilho. O gato, mesmo escondido, fica sempre com o rabo de fora. E o rabo do gato não é rabo de cueilho. O gato não tem estofo, enquanto o cueilho é estofado, tem estofo próprio.

Também não se pode comparar com a lebre, pois é muito mais lento que ela e, quanto a feijoada, fica a milhas. Isso não quer dizer que o cueilho não seja ele próprio. É, mas precisa ser bem esfolado.

Para ser e parecer mesmo um cueilho, tem de ser verdadeiro nos tachos, mas mentiroso na coutada. Senão, acaba por levar chumbo no pelo e, sem ele, ninguém mais vai querer acreditar que é cueilho.

Já o cueilho citadino tem características algo singulares que o distinguem do cueilho rural. Tem mais propriedade no mentir, mais subtileza na língua e mais doçura na voz. Muito mais original.

Por vezes, devido à sua correria, nota-se que é um cueilho estafado, mas igualmente autêntico, como aqueles concorrentes dos bigs da TV que, sendo sempre eles próprios, não esquecem as boas mentirolas.

Mas é precisamente assim que a cueilhada gosta dele. Porque ninguém mais neste país seria capaz de comer gato por lebre. Mas, comer gato por cueilho, é um petisco que não pode perder-se.