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afonsonunes

afonsonunes

23 Dez, 2017

Desentendimentos


Atrevo-me a dizer que vivo no país dos desentendimentos, até porque eu próprio sou um inconformado desentendido, embora me esforce imenso para ver se consigo entender as incongruências que todos os dias me aparecem nas notícias.

Não entendo, nem muito nem pouco, porque carga de água uma data de gente geralmente desentendida, está muito preocupada com o facto de não se demitir um ministro por dia, por causa de coisas que pensam, sem pensar minimamente, e preventivamente, em desentendimentos de pessoas que gostam de os fabricar.

Há pessoas, boas e más pessoas, que não entendem que os ministros são pessoas que, não fazendo tudo perfeito, não podem ser atacadas só porque são primos, tios ou amigos de pessoas que fazem ou fizeram isto ou aquilo. O que interessa é se são bons ou maus ministros. Se cometem ou não abusos na sua governação.

Essa avaliação não pode estar sujeita a julgamentos de palpite de gente que está fora do assunto, por vezes mal intencionada, por motivos diversos e interesses escuros. Daí os desentendimentos entre pessoas sérias que não acreditam em historietas e pessoas desonestas que apenas pensam em criar novas maneiras de conquistar simpatias para si, e antipatias para aqueles querem ver demitidos.

Por outro lado, um lado muito sensível para muitos cidadãos, o futebol anda submerso em lama, aparentemente, enlameado por figurões que, vivendo dessa lama, tentam convencer tudo e todos de que são umas pobres vítimas de uns malandros, vigaristas e corruptos.

Esta situação é velhinha, de muitos anos e, para chegar aqui com esta dimensão, só com a complacência de dirigentes tendenciosos, de governos medrosos de perder clientelas, de uma justiça incapaz, a dois tempos, norte sul, de regionalistas sectários clubisticamente, de uma informação interesseira e comprometida com interesses dessa guerra que arrisca ser eterna.

Por entre tantas indecisões, tantas faltas de coragem, só uma intervenção acima de todos os poderes incapazes ou incapacitados, para quebrar este medo de queimar as mãos ao mexer em coisas tão escaldantes. Só uma intervenção que possa dizer, alto e pára o baile.

Estão em causa as instituições. O seu bom funcionamento. E isso cabe e coube aos Presidentes da República. Os que já passaram, passaram sem tomar esse menino nos braços. O atual, diga-se que não o pode fazer apenas com afetos, no futebol como na justiça, onde será preciso braço tenso, mais que abraços, para que o país respire de alívio.

A democracia também é isso. Os cidadãos respirarem de alívio ao ver terminar tudo aquilo que os impede de terem informação limpa, justiça célere e justa em todos os campos, desporto sério, sem dominadores cheios de vícios e interesses obscuros que lhes servem de suporte a vidas de magnatas com discursos insuportáveis, sem que ninguém os contrarie ou investigue.Estamos no Natal, tempo de paz, amor e concórdia. Porém, temos mais um Natal de ódios, de clivagens, de desentendimentos. E até de invejas, de sedes de poder, de vinganças mesquinhas, de discursos hipócritas e ações contraditórias com os discursos inflamados.

Os portugueses merecem viver sem desentendimentos graves, para lá das discussões saudáveis das ideias plurais e enriquecedoras das vidas e da democracia.