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afonsonunes

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20 Out, 2020

Felizmente!...


Estes difíceis tempos que atravessamos fazem-me lembrar cenas do romance de Eça de Queiroz, os Maias, principalmente no contraste das vidas luxuosas e desregradas dos cortesãos e da opulenta nobreza, em comparação com a plebe miserável e quase a roçar a escravidão.
Dizia-se então que este miserável país não tinha ideias nem pessoas com categoria mental para o tirar deste lodaçal e fazer com que deixássemos de copiar tudo o que no estrangeiro se fazia, ainda que do pior que nos podia acontecer como povo livre e independente.
E bem me parece que há boas razões para algumas comparações. É verdade que temos alguns Carlos Maia e um ou outro João da Ega. Mas isso não chega, como não chegou então, para que se regenerasse o país, cortando rente as raízes das ervas daninhas que o atabafavam.
Paris era então, juntamente com Londres e Roma, o sonho e a felicidade dos portugueses abastados ou falidos, mas ávidos de prazer e vaidades. Hoje, por cá, qualquer labrego se dá ares de importante reclamando libertinagem de asneirar no seu emprego ou desemprego.
Felizmente, porém, que não somos governados agora, como já fomos durante vários períodos de penosos e dolorosos quatro anos, pois, apesar de outro tipo de catástrofes inéditas que suportamos, resta-nos a consolação de que, agora, quem mais nos atormentou não governa.
Sim, porque felizmente, não estamos a ser governados por nenhuma ordem, nem por alguns dos seus desordeiros barulhentos e amigos do quanto pior melhor, para tentar ganhar pelo medo e ameaças de infernos, que sabem não contar com o apoio do povo pela via do voto.
Ordens e desordeiros são o que não falta nestas alturas decisivas e irrepetíveis em que o país, ou aproveita a oportunidade de mudança séria, ou continuará nas mãos dos oportunistas de sempre e vergado às ordens de vigaristas que são e serão, os responsáveis inatacáveis.
Nestas ordens e desordens estão irredutíveis defensores de tudo o que é privado, de tudo o que querem ver fora do domínio público, seja pela privatização quer através da passagem do poder para a esfera dos órgãos de classe fechados, impenetráveis e incontroláveis.
Curiosamente querem o privado, porque o privado lhes paga melhor. Mas querem sempre que seja o público a mama salvadora em todas as situações difíceis, quando não, mantendo as duas mamas ativas, nem que o público seja apenas a mama que chupam enquanto dormem.
Não suportam, não aceitam, nem toleram que um qualquer governo ou governante, fale mais alto que eles, tome decisões que não lhes agradem, possa responder aos seus insultos ou sequer sugerir medidas para aprovação, sem que isso seja apelidado de polémica inaceitável.
O tempo dos Maias e do Eça já lá vai. Mas por cá, ainda temos um Cavaco que escreve coisas com o considerar-se o fenómeno que inventou a melhor democracia, a melhor democracia moderna, que o país já teve. Diria eu: artistas assim, toquim bem mas caguim-se muito.