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afonsonunes

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01 Abr, 2015

ISTO NÃO É FALAR

 

Exatamente, neste momento, inicio uma ação de escrita e não uma conversa fiada. Tenho um teclado, um ecrã e alguns dedos para começar. Se quisesse falar com alguém, tinha de o chamar. Senão, falava sozinho.

Além disso, tinha de mobilizar a língua, parte essencial para se falar. Para escrever, ela fica quietinha no seu lugar. Logo, obviamente, escrever não é falar. Posso pedir a alguém que fale comigo, mas não que escreva comigo.

Escrever, escrevo sozinho na quietude do meu recanto inspirador. Falar, só falo, quando estou acompanhado de quem posso receber o prazer do seu olhar e retribui-lo, complemento essencial para uma boa conversa.

Portanto, julgo não estar enganado, dizer que é estúpido, alguém não querer falar comigo. Alguém que não chamei pelo nome. Estúpido não é um nome. É uma qualidade. Ou um defeito. Nenhum estúpido respondeu.

Estúpido seria eu, se convidasse outro estúpido para escrever comigo. Até porque teria muita dificuldade em dividir o teclado ao meio, para que ambos ficássemos satisfeitos. Mas podemos corresponder-nos numa boa.

Podemos, sem ser estúpidos nem espertos, à falta de podermos falar olhos nos olhos, estar ligados por correspondência, por mensagens, por telefone, por diversas tecnologias. Mas, falar através da escrita, isso não.

Adoro falar com a família, com os amigos com quem posso juntar-me fisicamente, frente a frente, à mesa, num café, num passeio. Mas também adoro escrever. Para isso, tenho de estar só. Posso é partilhar a escrita.

Já escrevi muito. Só aqui, já vai em sete anos. ‘Sete anos de pastor Jacob servia’… Mas não servi a ninguém… Só a ela! À escrita. Sem pretensões. Tenho a certeza de que, mesmo que ninguém me lesse, eu não parava.

É isso que vai acontecer, se puder e me apetecer. Aqui e, ou, em qualquer outro local. Mesmo que sejam hinos à estupidez. Não há ninguém imune. Muito ou pouco. Tomara eu que ela não me tocasse muitas vezes.

Contudo, num ou noutro momento, já me aconteceu balbuciar para mim próprio, essa palavra tão desagradável, que ninguém gosta que lha dirijam. No entanto, são apenas oito letras. E há palavras bem piores.