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afonsonunes

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28 Dez, 2015

Medos

 

O país vive tempos de medos. Parece que toda a gente anda a tremer com medo de qualquer coisa, sendo certo que essa coisa não é a mesma para toda a gente. Há quem tenha medo de perder o que tem, por muito pouco que tenha.

Mas, quem mais medo tem é, precisamente, quem tem muito a perder, mesmo que o tenha arranjado ao arrepio de todas as normas da seriedade. Paradoxalmente, quem já não tem nada, tem medo de ficar sem a vida.

É muito estranho que quem tanto se queixou de que estava tudo mal, esteja agora a clamar contra as mudanças que já lhe estão a moer o juízo, mesmo antes de as conhecer, nem sequer se saber, se realmente existirão mudanças.

Já caíram no esquecimento, todos os causadores, e são muitos, de todo este estado de coisas. Nomeadamente, todos aqueles que têm processos parados há anos, e também os que ainda os não têm, e desviaram milhares de milhões.

E, mais paradoxal, é que todos andam à solta. E ninguém lhes pede contas pelo que desviaram, roubaram, ou não pagaram o que pediram aos bancos. Neste país de boa justiça, só há um vigarista e esse, que se saiba, não roubou nada.

Talvez ande muita gente com medo que veja acontecer o que de há muito devia ter acontecido. Muita dessa agitação que se nota por aí antes de se dar por ela, pode ser sinal de que há sombras que assustam e fantasmas que metem medo.

Até à meia-noite de hoje, vão ser selecionados os acontecimentos e pessoas do ano que agora termina. A minha lista teria cem vezes o comprimento da língua de algumas pessoas que deviam estar já, sem medo, à sombra, atrás das grades.

Nomes? Eles já andam por aí em linguagem muito clarinha. Dos maiores e mais importantes, até aos que, à sombra desses, se amanharam à grande e sem medo. Aí se podem encontrar os acontecimentos e personalidades de anos.

Mas, que não se tape o sol com a peneira. Que não se fale só de uma estrelinha minúscula, deixando de fora todo o sistema solar. Não há que ter medo dos iluminados por fachos de palha. São fogos-fátuos na imensidão do universo.

Aqueles que hoje geram tanto medo, ou conseguem transformar esse medo no sombrio descanso que os medrosos merecem, ou acabarão por se tornar numa pura perda de tempo, como já foram tantas outras passagens feitas de tretas.