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afonsonunes

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01 Set, 2014

O AVIÂO

 

 

Um avião da TAP preparava-se para sobrevoar Cabo Verde, eis senão quando, a tripulação foi assaltada por um sentimento de pena de um desesperado que lhes pareceu estar a esbracejar lá em baixo.

E vai daí, toca a fazer descer o avião, aterrando na ilha do Sal. Um dos passageiros, ao aperceber-se que estava em Cabo Verde, logo pensou com os seus botões que, finalmente, iam buscar o homem.

Pois, pensou ele, o homem que, por fazer uma simples assinatura num importante documento, numa noite feliz, ganhou o seu primeiro milhão. A partir daí, os milhões nunca mais pararam de entrar.

O imaginativo passageiro, logo que sentiu o solo da pista ser pisado pelo trem de aterragem, virou e revirou a cabeça e os olhos em todas as direções, à procura do homem dos milhões e do saco respetivo.

Entretanto, ia pensando, sempre com os seus botões, que devia tratar-se de alguém muito sério, que resolveu refugiar-se ali, para que nenhum colega fosse tentado a roubar-lhe o seu saco da massa.

O mundo é assim. Ele sabia que, ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão. O risco e a cobiça ameaçavam o seu saco dos milhões. Mas, ficar sem ele é que não. E o perdão podia perder-se.

As divagações do passageiro não paravam, à medida que o avião perdia gaz na pista. O homem podia estar perto. Quem sabe, podia vir com ele, o grande amigo que um dia pôs as mãos no fogo por ele.

Depois, o passageiro fez um ligeiro esgar de dor, ao imaginar como deviam estar aquelas mãos. Obviamente queimadas. Mas limpas. O tempo cura tudo. O avião parou na pista. O passageiro ergueu-se.

Afinal, aquela ilha do Sal não lhe ofereceu nada de novo. Nem homem, nem saco de milhões, nem o amigo de mãos queimadas. Apenas o seu avião parado. E ele, apenas ele, a sonhar com ladrões.