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afonsonunes

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Nas árvores de grande porte de algumas ruas, largos ou avenidas, por esta altura do ano, ao por do sol, ouve-se um barulho ensurdecedor. É o chilreio de bandos de pardais que nelas se refugiam para passar a noite.

E isso acontece logo que o frio aparece, normalmente, a partir do mês de Setembro, altura em que as árvores apresentam um folhedo denso e protetor. O auge da agitação ocorre precisamente na procura de lugar.

Mesmo durante a noite, depois de acomodada nas ramagens, há sempre um vago e diminuto chilreio, indicativo de que nem toda a passarada dorme tranquilamente. Entretanto, debaixo das árvores, a coisa cresce.

Depois, lá para o mês de Janeiro as árvores perdem a folhagem. A nudez dos ramos torna-se desagradável e a passarada procura outros refúgios mais abrigados. Entretanto, as folhas secas cobrem o sujo que ficou.

Há uma coisa que retenho do chilreio da pardalada nas árvores de grande porte. O seu número e o volume impressionante do chilreio coletivo. Mas basta que ao redor se bata uma palmada, para que tudo fique em silêncio.

Durante largos segundos, não se ouve um pio sequer. Não há uma voz de comando mas, de repente, tudo recomeça. A passarada, toda ela, sabe quando deve chilrear e quando deve calar. O chilreio tem o seu controle.

O que não tem controlo é o sujo que durante toda a noite cai no chão. Ou em cima de quem se atreva a passar debaixo dessas árvores. É que a passarada não respeita ninguém. Mesmo sabendo que a rua é para gente.

Por causa disso dei comigo a pensar que há coisas nas pessoas muito parecidas com a passarada. Ou a pardalada. Há tempos em que não se cala durante todo o dia e toda a noite. Sempre a chilrear. E a sujar.

De súbito, como se alguém batesse as palmas, o silêncio invadiu tudo. Tudo se calou e nem piou. Até quando, não se sabe. Mas há aqui qualquer coisa de estranho. Que será? O silêncio é tão estranho como o chilreio.