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afonsonunes

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14 Mar, 2020

O dono de casa

Na casa de quase todos os portugueses há uma dona de casa que é, nem mais nem menos, que aquela gestora de quase tudo o que acontece dentro do lar.

A partir de agora esta realidade pode ter mudado radicalmente, pois os acontecimentos determinados por um tal de Coronavírus, trouxe para o interior das casas, durante o dia inteiro, uma quantidade enorme de portugueses, o que implica uma nova necessidade de gestão doméstica.

Assim, além de uma dona de casa, passamos a ter também um dono de casa, que pode ou não, ser um ajudante da dona, ou esta passar a ser uma ajudante do dono. Tudo, da casa, obviamente, pois ninguém é dono de ninguém.

Chega a ser comovente como certos machões que nunca fizeram mais que sentar-se à mesa e comer, passam agora horas e horas a tratar da comidinha e a fazer as arrumações e limpezas de tudo aquilo que eles só sabiam desarrumar e mastigar.

Para estes novos donos de casa, este vírus foi uma bênção divina que finalmente concedeu às mulheres, mais um alvará que estipula um regime de igualdade caseira a todos aqueles que se julgavam os únicos a ter direito ao lar, doce lar, depois de um dia de trabalho que hoje, mais que nunca, ambos têm fora de casa.

Obviamente que este despertar de consciências entre donos e donas do lar, não compensa todas as contrariedades que vão arrasar procedimentos e sacrifícios, alguns pagos com a própria vida, de muitos milhões de pessoas.

Que vão destruir vidas que os estados não vão ter capacidades de evitar nem compensar, que os vários setores de atividade não vão poder colmatar por falta de meios de toda a ordem, que as pessoas serão sempre impotentes perante calamidades que as superam e vencem, por mais voluntariosas e solidárias que se empenhem nas suas missões profissionais.

Por tudo isso, se espera que todos os perfecionistas que sempre descobrem as suas perfeições apenas depois das calamidades acontecerem, não venham agora badalar tudo o que eles dizem, agora, ter sido previsível e evitaria todas as calamidades. Estes bruxos de ocasião já começam a inundar a comunicação social com aquilo de que ela gosta e lhe alimenta o sensacionalismo por mais desastroso que ele venha a ser depois.