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afonsonunes

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26 Nov, 2015

O Teimoso

 

Conheço um restaurante com este nome de, O Teimoso. O menu está preenchido com pratos, todos eles relacionados com a política e os políticos nacionais. Então, hoje, agora, lembrei-me de um novo prato.

Não sei se O Teimoso também já o terá descoberto, mas não me admiraria nada que no jantar de hoje já haja, Migas à Cavaco. E até me atreveria a adiantar ingredientes para essa maravilha culinária completamente nova.

Pão alentejano muito duro de roer, pois nem sequer é demolhado. Não aconselhável a pessoas com dentes à Cavaco. Muito vinagre, muito piripiri, para amolecer o pão. Muita pimenta e dentes de alho esmagados.

Alhos com casca, claro, para condizer com o pão duro. Nada de sal, pois isso aumenta a tensão e o alto risco de desmaio a seguir à refeição. Que já tem havido n’O Teimoso, mas hoje, por acaso, foi um jogo de ping-pong.

Como isso se joga a dois, a sobremesa foi, Docinho à Costa. Admirável a consonância. A dureza das Migas à Cavaco e a suavidade do Docinho à Costa. É por isso que o sucesso de, O Teimoso, já vai longe. Muito longe.

O Teimoso, antigamente, tinha o nome de, Zé dos Cachopos. Era uma taberna à antiga, com copos de três e carapaus fritos. Mas, então, o pão era mole e quem lá ia tinha bons dentes, comia muito e pagava pouco.

Como os tempos mudaram, agora, está tudo das avessas. Já se pagam as azeitonas, os tremoços e até o palito para os dentes. Só a conversa aldrabada continua a ser gratuita. Cada vez mais indigesta. À Cavaco.

O cliente pode pedir temperos complementares, mas isso já são extras. Já sei que há quem esteja a comentar que essas migas devem ser intragáveis. Serão, mas são exatamente com manda, O Teimoso e o nome, à Cavaco.

Outra coisa não seria de esperar de um Teimoso, igualzinho a um Cavaco. Mas, para variar, não há nada como cada um ser fiel a si próprio. N’O Teimoso, quem manda é quem dá o nome ao prato. ‘E mai nada’. Certo?

Ninguém melhor que Cavaco tem uma teimosia tão simples, tão pura e tão dura. É do pão duro. Quem não gosta come menos. Quanto a pagar, quanto menos comer, mais paga. Mas ele diz que assim é que está bem.

Hoje, na hora da merenda, não estive n’O Teimoso. Mas a TV serviu-me tudo aquilo que já esperava encontrar nela. Sinceramente, dali já não se espera nada. Velhice, teimosia, repetição. Mas, não dormi, nem desmaiei.

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