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afonsonunes

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23 Out, 2015

O velho de Belém

 

Entendo que devo começar pelo princípio. Camões deu vida ao Velho do Restelo nos Lusíadas. Àquele velho que, ‘no porto de Belém’, contestou a saída das naus de Vasco da Gama. Repito: o velho, no porto de Belém.

Portanto, Camões deve ter-se equivocado. Não havia um velho do Restelo, mas, um velho de Belém. Ainda hoje, quando se fala nos velhos do Restelo, devia falar-se dos velhos de Belém. A história está mal contada?

Quero lá saber. O que sei é que há velhos de Belém, porque houve um velho de Belém que falou enquanto dormia a sesta. Há quem diga que o velho de Belém ainda lá mora. Embora tenha a voz muito, muito, sumida.

Isso acontece naturalmente, mesmo ao Velho de Belém, pois a idade não perdoa e, para sua desgraça, o mundo avança enquanto ele ficou petrificado olhando o mar, agora já sem naus, mas com navios enormes.

Realmente, o Velho de Belém, se ainda lá está, no porto de Belém, hoje está mesmo a ver navios, pois é evidente que, as suas curtas vistas, tão curtas, já não vão além da densa neblina que entra nas suas cataratas.

Como é meu costume, talvez mau costume, não posso passar sem meter a política nestes meus escritos. Por vezes, mesmo muito pouco a propósito. Hoje deu-me para meter S. Bento nesta historieta dos velhos de Belém.

Os gregos derrotados, como que por obra e desgraça de Belém e S. Bento, transformaram os vitoriosos, em rejeitados. E não conseguem perceber que, quando não podemos vencer, podemos juntar-nos aos vencedores.

Nada mais fácil. Como diz a ‘tradição’, se não consegues vencê-los, junta-te a eles. Com isso, aí teríamos o maior consenso que alguma vez o país conheceu. Maior ainda que a tão desejada união nacional dos rejeitados.

Diz-se por aí que Cavaco arrasou a alternativa da maioria de esquerda. Mas, ao que parece, Cavaco arrasou-se a si próprio. Pelo conteúdo do que disse mas, sobretudo, pelo tom que usou no que disse. Já não se usa.

Talvez haja ainda uma saída honrosa para ele e para os seus súbditos. E é mesmo simplória. Passos e Portas, como Egas Moniz, podiam ir a Belém e informar o arrasado Cavaco, que não têm condições para formar governo.

Podia até ser uma questão de dignidade. Cavaco já fez tanto por Passos e Portas, que merecia uma justa, sóbria e digna retribuição. Uma ação conjunta de romagem a Belém, mas já, reporia a dignidade de todos eles.