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afonsonunes

afonsonunes

15 Jun, 2015

OBRIGADO

 

Quero agradecer-lhe penhoradamente por se sentir aliviado por os aviões que já quase não são nossos, continuarem a voar, embora cada vez mais em voo rasante. Sei que costuma voar com companhias que voam alto.

O seu alívio também é o meu alívio. Porque é, em última instância, o país que fica mais aliviado de tudo o que lhe causa estorvo. E quem sou eu para me sentir bem, sabendo que há quem se sinto aliviado com estorvos.

Mas é bom saber que há mais estorvos que estão mesmo a pedir o mesmo destino que os aviões. Passemos do ar para a terra. Os comboios. Calculo o acréscimo de alívio que vai sentir ao ouvi-los apitar privadamente.

E que dizer dos autocarros e dos elétricos. Montes de trabalhos que é preciso despachar. Já e quanto antes. Não posso deixar de estar preocupado com o estorvo que lhe causam. E com o alívio que vai sentir.

O mesmo se passará com o metro. Esse é ainda um negócio mais escuro. Obviamente, porque anda no subsolo. Mas que alívio vê-lo ir. O povo precisa de ver mudanças. Que venham as charretes e os cavalos privados.

Mas há mais alívios que já vêm a caminho. O oceanário, com os seus tubarões. Os portugueses não gostam de tubarões. Bem-feita. Vão ser vendidos a pataco, juntamente com uns peixinhos raros que cheiram mal.

Por acaso ainda não ouvi ninguém sentir-se aliviado com o facto de o Jardim Zoológico permanecer intacto. Os negociantes são mais para o peixe. E os burros, as vacas e os macacos, não causam estorvo a ninguém.

Por acaso, lembrei-me agora das estátuas de todo o país. O governo pelo dinheiro e o presidente pelo alívio, ainda não se lembraram do negócio das estátuas. Lembranças históricas, milhões de toneladas de riqueza.

Compradores não vão faltar. O preço, são os saldos do costume. Depois vem o bónus. Por cada Camões vendido, dois navegadores oferecidos. Por cada Marquês de Pombal, oferecem-se um conde e uma condessa.

Portanto, o país está a mudar. E mais depressa do que os distraídos veem. Quem não sabe ser caixeiro fecha a loja. E esta loja que é o país, está cheia de caixeiros que não sabem vender a própria a alma. Mas vão aprender.