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afonsonunes

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16 Jul, 2016

Pobre homem

 

Há quem tenha a pretensão de ser um incendiário útil ao país. Ou talvez tenha a pretensão de ser útil aos seus devaneios, por ter a ilusão de viver num país em que os seus habitantes o veem como o salvador dos pobres, que veio do reino das fortunas aos pontapés.  

Mas, para se ser incendiário tem de se ter um fósforo ou um isqueiro. Em alternativa, pode ter-se uma língua de fogo que, por ser uma raridade e uma novidade, aparece em tudo quanto é notícia. Porém, passada a fase da ilusão, o candidato a incendiário cai no descrédito e não passa de um pobre homem.

Um pobre homem que já teve quase tudo, mas já não tem nada. Porque o seu paleio já não é rastilho, nem pólvora seca, nem fumaça que assuste. Tornou-se um revoltado por ver cada vez mais longe a hipótese de voltar a ser dono de um sonho que durou quatro longos anos.

O sonho do outro, aquele que lhe roubou o seu sonho, tem agora a obrigação de completar, acordado, aquilo que o pobre homem nunca foi capaz de concretizar. Mas não perdoa a si próprio o facto de ter perdido a oportunidade de não se deixar ultrapassar e perder a corrida.

O pobre homem deixou-se roubar. Aquele que o roubou com uma limpeza impressionante, poderá dizer com aquela velha sabedoria popular: quem rouba a ladrão, tem cem anos de perdão. O pobre homem roubou anos sem fim, especialmente nos últimos quatro. Ironia do destino: acabou roubado. Não à sua maneira, mas como ele próprio merecia. Com o veredicto popular.

Por vezes, a democracia tem destas coisas. Uns roubam a sério, enquanto outros roubam a brincar. O pobre homem não se conforma com esta democracia que pôs outro no seu lugar. Tal como não aceita que os seus roubos sem castigo, sejam maiores que o roubo do outro. Daquele que lhe roubou o lugar.