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afonsonunes

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25 Out, 2016

'Politicoices'

 

Tenho andado tão distraído com os exteriores das estações de televisão que até me tenho esquecido de que há uma atualidade política muito excitante. Diria mesmo que ela está mesmo, mesmo, delirantemente excitante. Mas nunca poderia estar mais excitante que os exteriores das televisões.

Há lá coisa mais salutar que ver como aqueles heróis de máquinas de filmar às costas e carregadores de microfones, vinte e quatro horas por dia, se aguentam a observar os outros heróis de armas em punho a ver se caçam qualquer coisita no meio dos matagais. E, ai deles, se não aguentassem.

Sim, caçar é procurar caça. E caçar é também trazer a arma carregada com cartuxos de chumbo ou com balas, pronta a disparar, logo que se aviste uma presa. Uma presa que é, sem dúvida, caça grossa. No caso dizem que se trata de caça ao homem. Mas o homem, qual fera que se sente como se tivesse a cabeça a prémio, também quer ser herói.

 Quanto aos outros caçadores, os caçadores de imagens, excitam todos aqueles que, como eu, se deleitam, dia e noite, sempre com a mesma informação: não há nada de novo. Claro que nem podia haver. Com toda aquela cumplicidade festiva de quem sente que, no final, os louros cinegéticos vão ser repartidos mano a mano.

Até parece que os manos não podem trabalhar um sem o outro. Não é fácil chegar à conclusão de qual deles beneficia mais com essa cumplicidade laboral. Ou qual deles poderia fazer um esforço maior no sentido de se afirmar pelo trabalho individual.

No entanto, há quem não esteja satisfeito com o facto de não cheirar a pólvora nesta, como em outras caçadas. E então sugerem-se as mais variadas hipóteses de abreviar as caçadas. Por exemplo, aquela em que fossem banidas todas as armas de fogo deste apelidado de ‘reality show’. 

Ficariam assim, no terreno, apenas os caçadores de imagens. Como têm uma grande tradição de objetividade e rapidez nas investigações, o estado ficaria muito grato, porque via as contas orçamentais muito melhoradas, os armados descansavam, os contribuintes agradeciam e os telespetadores, como eu, viam o seu suplício, o seu esforço e a sua angústia e ansiedade reduzidas a zero.

É caso para dizer, por vezes, o que parece uma parvoíce e uma inutilidade, acaba por ser uma alternativa a outras que ouvimos ou vemos a toda a hora. Como diria um dos idiotas que se lembrou destas coisas: aprendam que eu não duro sempre. Duro ou mole, o que é preciso, é não estar quieto nem calado.

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