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afonsonunes

afonsonunes

17 Jun, 2015

QUEM NÃO TEM?

 

Há sempre aqueles valentões e aquelas valentonas que dizem não ter medo de nada. A verdade é que, logo que lhes toca a vez, ei-los de mãos na cabeça, lamentando que tenham sido eles ou elas os sacrificados.

Ninguém tem medo do nada, porque o nada não existe. Mas toda a gente tem medo de tudo. Só depende da ameaça que o medo representa. Até há quem garanta que não tem medo de morrer. Só até chegar a hora.

Mesmo aqueles a quem são dadas todas as condições para se curarem. Mas, lá vem um momento em que os privilégios não asseguram nada. A ninguém. Aí, toda a valentia se cala e dá lugar ao medo. O medo da morte.

Isto acontece a todos os poderosos quando se deparam com ela, frente a frente, sem poderem ordenar-lhe que vá bater a outra porta. Precisamente o mesmo que acontece a quem morre de fome ali ao lado.

Nessa aflição, quase se morre de medo, quer se trate de quem não tem dinheiro para o medicamento que cura, para o médico que salva, ou para um deus que não aceita uma súplica para a concessão de um milagre.

A resignação final é muito mais fácil a quem se habituou muito cedo à ideia de que o fim da vida não aparece igual para todos. Até porque há quem se tenha habituado a adiá-lo. Depois, o inadiável é um pânico.

E não adianta querer transformar esse pânico num sentimento inspirador de pena, de mártir ou de sacrifício, por causas de maior ou menor impacto junto dos que ficam condicionados, à espera de que chegará o seu dia.

A morte não é um prémio nem um castigo para ninguém. É simplesmente uma inevitabilidade. Mas também não é um jogo do qual se queira retirar os benefícios de quem ganha ou, pior, causar prejuízos a quem perde.

A propósito de quem tem ou não tem medo de morrer, é muito mais nobre e humano morrer com dignidade, que viver mais uns dias ou anos, apenas para prolongar o engano daqueles que sempre foram enganados.