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afonsonunes

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23 Set, 2014

SALSICHAS

 

 

A memória de certas pessoas tem mesmo algo que se lhe diga. Atraiçoa os seus donos com uma crueldade que deixa de rastos os traídos, como se quisesse humilhá-los da maneira mais estúpida e mais incrível.

É o caso do doutor Pedro Pássaros, que se lembra perfeitamente da salsicha educativa de Karl Marx, imagine-se. Quantos anos que já lá vão. Sinceramente já nem me lembra. E eu até nem sou assim tão novo.

Mas o doutor Pedro Pássaros não se lembra mesmo nada de uma salsicha bem mais recente, que até parece que a comeu ontem. Salvo erro, trata-se da salsicha tecnofórmica, feita com técnica, fórmica e muita chicha.  

É evidente que não lhe podiam faltar os temperos, senão ficaria intragável. Além daqueles condimentos normais, como o sal e a pimenta, levava ervas a dar com um pau. Era conhecida como a salsicha relvática.

Tendo em conta a sua deficiente memória, o doutor Pedro Pássaros estendeu a salsicha até uma das suas sete quintas, depois de ela se ter encolhido muito, ao entrar na segunda das sete. A memória é traiçoeira.

Não me admiraria nada se os gestores das sete quintas do doutor Pedro Pássaros, lhe caíssem em cima a pedir perdão por não terem a mesma salsicha que ele na memória. Há alturas em que mais valia não a ter.

No entanto, se acaso a salsicha falhar, há sempre a possibilidade de se recorrer a um bom salpicão ou a um bom paio. É uma questão de tripa. Maior ou menor. Mais cheia ou mais vazia. Mais dura ou mais molinha.

Se a fábrica de salsichas fechar, os seus donos dedicar-se-ão ao fabrico de enchidos. Em lugar de picar mais as carnes, picam-nas menos. Quanto aos condimentos, nada de novo. É só aumentar a tripa, atar e por no fumeiro.