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afonsonunes

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Estive preso à televisão na cerimónia que foi anunciada como comemorativa dos quarenta e um anos do vinte e cinco de abril. Estive preso e o ambiente não era mais que o de uma prisão dos tempos de hoje.

Contemplei aquelas montanhas de cravos frente á mesa da presidência. Cravos mortos, enterrados em vala comum, com uma data de olhos a sobrevoá-los. Uns com muita compaixão, outros sorrindo interiormente.

Havia dois olhos que, acima dos cravos, permaneciam quase sempre fechados. Como que vivendo um pesadelo motivado por tanto ter pisado tantos, ao longo de tantos anos. Mas nunca com a firmeza dos últimos.

Aqueles cravos mortos deviam estar em lapelas vazias que ali foram precisamente para mostrar como nunca gostaram deles. Que sempre os detestaram, apesar do sacrifício enorme de os suportarem no dia de hoje.

E aqueles cravos mortos ficaram definitivamente murchos, quando ouviram os piores dislates de quem diz o contrário daquilo que sempre fez. De quem tira a lama das suas fatiotas para a atirar à cara dos outros.

‘25 de Abril, sempre’. A sua comemoração não passa já de uma farsa, de que se afastam cada vez mais, as pessoas que o respeitam. Ao menos que o seu espírito sobreviva, como sobreviverá sempre tudo o que nos marca.

Tanta mentira, tanta hipocrisia, tanta maldade, em bocas que deviam lembrar-se que estavam na casa da democracia, no dia de falar verdade, no dia de ser sério e no dia de ter ao menos alguma vergonha na cara.

Naquela bancada abaixo das mesas dos cravos mortos, havia caras para tudo. Uma de palhaço sempre a rir, outra de quem nunca levantou o olhar, outras de quem mostrava o quanto sentia vergonha de estar ali.

Quanto aos discursos, o habitual espetáculo de fogo preso. Porque todos os pirotécnicos estavam presos nas suas redomas de interesses. Portugal esteve ausente. Quem esteve ali foi Ali Babá e muitos dos seus súbditos. 

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